quarta-feira, 7 de julho de 2010

XI


 Ao chegar em casa, ainda com a imagem fixa de 51 na rua, deparou-se com Mônica. No entanto desta vez ela não o agrediu nem o provocou como fizera das vezes anteriores. Ao contrário, ela estava mais pensativa que de costume. E isto poderia ser bom ou péssimo. Novo toque no celular. Nova mensagem de Andressa. Nova irritação. E, mesmo contra sua vontade, foi para o seu quarto, ligou o computador e entrou no MSN.


    Queria dividir só com ele aquele primeiro momento de glória. E a adolescente estava totalmente enganada se quisesse, ou ao menos imaginasse, controlar sua vida. Thiago imaginara que tinha deixado isto muito claro a ela. No entanto, como estava com acúmulo de trabalhos confundiu a nova namorada com Talita. E entre o novo casal a relação ficava tensa na disputa sobre quem teria o controle de quem e de que.


    Frio, como na maioria das vezes que lidava com o ser humano, começou a teclar com a namorada. Já estavam a caminho do segundo mês de namoro e nem um chocolate ele havia dado de presente a ela. Ao contrário, cada vez mais a inseria no seu mundo como uma forma de ela fazer suas vontades. Ela, altamente esperta a despeito de seus poucos anos de vida, estava no jogo dele. Não percebiam que costuravam com fios mais finos que fios de seda a relação ora iniciada.


    Ora era a banda, ora o bar que ele escolhia, ora as atividades escolares e uma vez ou outra o encontro dele com a mãe dela e vice-versa. Andressa no fundo sentia-se mal com aquilo e logo no começo pensou em por um ponto final na relação. Mas e o dinheiro e a possibilidade de ele dar um conforto que ela não tinha experimentado até então ficariam como? Não, ela não desistiria do professor por nada. Tinha engolido sapos suficientes até aqui para chegar onde tinha chegado. Já até havia feito com que ele excluísse Talita do seu Orkut. Agora não era o momento de voltar atrás. E ainda ela tinha a mais poderosa das cartas na sua manga: sua virgindade.

    Mônica andava absorta e ainda sofrendo com o impacto da descoberta que tinha feito de si mesma, recentemente. Por mais que sua amiga precisasse de sua ajuda ela não poderia fazer. Na realidade poderia sim e sabia que sim. Não tinha coragem de assumir mas estava completamente apaixonada pela namorada do seu irmão. Como nutria por ele um ódio latente, isto não seria problema para ela agir como deveria. O problema estava no fato dela espantar de vez a adolescente. E com esta realidade ela não estava pronta para lidar.

     Thiago gostava da presença da adolescente. Até pensava que a amava. E talvez fosse isto mesmo. No entanto, ele sempre tinha que estar no controle da situação. E aquela jovem parecia ter um talento especial para irritá-lo profundamente. O que ele não conseguia perceber era que cada vez mais estava enredado nos mistérios e nas manhas que Andressa fazia para chamar sua atenção. A ponto de ter que ficar com o celular desligado em algumas atividades para que ela não ligasse ou mandasse mensagens em horários inconvenientes. E mais a mais se ela estava disposta a dar sua virgindade a ele, ela que provasse isto. Já se iam quase quatro meses de namoro e nada. E isto, para ele, era uma eternidade.

    Esta arrogância do jovem professor não o permitia enxergar determinadas coisas óbvias. Se ele tinha seus 26 para 27 anos, ela por seu lado, só tinha 14 para 15. Só isto seria o suficiente para incriminá-lo por estupro de incapaz. Ele, dentro da sua mega auto-suficiência, não havia feito esta equação mínima e altamente relevante. Se tivesse levado isto em consideração talvez percebesse que por trás daquele rosto angelical e aparentemente inocente estava uma mulher – se não de mente, de corpo – que poderia ser mais sagaz do que ele imaginava. Entenderia que poderia ele também ser usado, como ele sempre gostava de fazer com os outros. Mas, como sempre, achando-se acima do bem e do mal repetia a si mesmo:

    - Se ela quer dar é problema dela. Não poderei ser acusado de nada.

    Tão esperto e tão inocente. Não conseguia enxergar um palmo na frente do seu nariz. E aí é que começou sua derrocada moral e emocional. Para apressar a decisão de Andressa ele começou a mostrar uma ostentação poucas vezes vista. Os passeios eram cada vez mais freqüentes, seus amigos sempre juntos, e não raro ele pagava as contas sozinho.

    Isto evidentemente alegrava ,principalmente, a mãe de Andressa que cada vez mais se aliava ao namorado e deixava a filha de lado. Sua filha favorita, diga-se de passagem. A filha, a esta altura, estava convencida que aquele seria o homem da sua vida até o momento que ela quisesse e como ela quisesse. Como era uma devoradora de livros, sabia como poucos que o sexo pode ser uma arma poderosíssima nas mãos certas, com tratos objetivos. O problema era que a adolescente percebia claramente que ele ainda estava muito ligado a sua ex-namorada. E isto era um incômodo da qual tinha que se livrar.

    Cometendo um erro crasso de avaliação, resolveu procurar Mônica e tê-la como aliada nesta verdadeira empreitada. Queria Thiago só dela. Para que ela pudesse lidar com ele de acordo com suas vontades. Seus planos eram bem definidos. Casamento e filhos? Só depois da conclusão do seu curso superior. Ele que a esperasse. Caso contrário, ela tiraria o máximo de proveito dele. A irmã vibrou. Esta seria a possibilidade que teria de tê-la também. Poderia agradar a todos. Ficaria ela com a nova namorada do irmão e ainda tiraria Talita da vida dele. Ele que provasse um pouco do seu veneno. Isto seria ótimo.

    O problema é que ela tinha um alto grau de timidez. E mesmo se descobrindo lésbica não era capaz de se abrir abertamente em relação ao tema sexo. Achava isto muito pessoal para ser exposto assim, em qualquer lugar, com qualquer pessoa. Por isto, evitava falar publicamente deste assunto. Imagine se tivesse que tocar no assunto que agora a assombrava: sua homossexualidade!

    Certa ocasião estava na chácara de Thiago e o professor havia saído com os seus amigos de banda para comprar mais cerveja e evidentemente enrolar um baseado. Relaxar sempre era e foi preciso. E usando a canabis o trio se sentia mais relaxado ainda. Aproveitando a ausência, Andressa e Flávia começaram a falar de sexo e de como seria bom. Ela foi corando, ficando sem graça até que, sem a menor cerimônia, Flávia disparou:

    - Bom minha hora já chegou... E a tua Andressa vai demorar muito ou já ta rolando também?

    Mônica corou mais ainda. Não que fosse mais virgem, mas era recatada para estas coisas. E sua homossexualidade que gritava dentro dela fazia com que ela se retraísse mais ainda. Sua melhor amiga, já embalada por algumas doses de caipirinhas e de vodkas respondeu sem titubear:

    - Não mais ta perto, bem perto...

    Aquilo fez com que a irmã do professor começasse a beber descontroladamente naquela tarde. E antes que ele chegasse, ela tirou uma foto com a adolescente. Era seu auge uma vez que na foto as duas apareciam de rosto colado. Mais tarde postou a foto em seu Orkut com a seguinte legenda: "Andressa... to toda desarrumada nesta foto, mas o importante é que ela ta comigo". Isto fez com que a adolescente se afastasse um pouco mais da amiga. Seus planos estavam claramente definidos e a última coisa que ela precisava agora é que suspeitassem que ela fosse bissexual ou lésbica. Tratava de mantê-la á distância. Mas ela cada vez mais parecia se entrelaçar entre os dois.

     Quando os amigos chegaram, ela correu até Thiago e deu-lhe um beijo como há muito tempo não ousava dar. Ele estranhou. Era a forma de ela dizer a todos que ela queria ser dele. Nem que fosse com "prazo de validade", mas seria dele e ele seria o primeiro homem da sua vida. Assustado, porém feliz com a recepção que tinha sido proporcionada pela namorada disparou:

    - Fazia tempo que você não me beijava assim, hein?

    - Ta esquecido, hein bobinho, sempre te recebo assim... Será que nem isto você tem percebido mais em mim?

    Mônica estremeceu ao ver a cena. Os amigos riram. O professor, quando dava um back, se tornava mais falante e com a memória menos afiada. Aliás se alguém tinha memória seletiva este era ele. Só guardava o que era de interesse dele. Neste ponto os dois convergiam. Não que tivessem lapsos de memória, mas apenas usavam esta para coisas que o interessavam.

    No entanto, a aparência era fundamental para ele. E ela, neste ponto, também não ficava em nada devendo ao professor. De fato, ela não tinha nada de santo. Muito pelo contrário, estava mais perto do ocultismo pagão do que a religiosidade. Além do que vivia com uma mulher que praticava com extrema habilidade a hipocrisia cristã. Dizia ser até devota de Maria. Mas era capaz de empurrar a filha para o primeiro endinheirado que aparecesse na frente. Não vendia a sua alma ao demônio. Mas as das duas filhas, sim.

    Andressa não se importava muito com o que os outros diziam ou pensavam. Ou pelo menos fazia questão de vender esta imagem para conhecidos e desconhecidos. O mais importante era viver ao máximo aquela relação com Thiago. Muito mais por conveniência do que por amor ou mesmo afeto, propriamente dito. Certa feita ela teria confidenciando a uma amiga:

    - No começo eu tinha nojo, sabia. Agora sei que é uma coisa diferente que rola com a gente. Não é amor, porque não virou minha vida de cabeça pra baixo. Amor é quando a gente se
descontrola. Mas ai de quem tentar cruzar meu caminho com ele...

    Definitivamente a adolescente estava determinada a desfrutar do melhor do que aquela situação pudesse lhe oferecer. Só não percebia que algo já estava definitivamente cruzando seu caminho que poderia ser o ponto que poderia marcar a separação daquele casal. Nenhum dos dois conseguia perceber que a ausência física pode ser definitiva numa relação onde o afeto,a amizade, a cumplicidade e principalmente o amor não são regados diária e constantemente. Como ali tudo era conveniente para ambas as partes, não percebiam o elementar. A separação física mais demorada poderia marcar o fim de tudo.

    E a política tinha entrado nas entranhas do professor com muito mais força do que ambos imaginavam. E pelo poder ele abriria mão de qualquer coisa. E ela não era a prioridade na sua vida. Se para sua mãe e para a mãe dela, a união deles era um sonho a ser alcançado , pelo mais diferentes motivos, para ele era muito além de tudo isto. Pelos mais variados motivos não acreditava no amor. Até porque não via o menor sentido em uma coisa que teria que ter o menor senso de pudor. E, definitivamente ele não havia nascido para ser pudico, muito menos para ser ético. Entendia – e até certo ponto tinha razão- que amor não precisava ter ética. Mas desde que o antiético fosse ele. E não que ele fosse vítima. Autocomiseração não era mesmo com ele.

    Mônica, por seu lado, ficava se remoendo de ciúmes dos dois. Se ela já achava que tinha todos os motivos para odiar Thiago, agora ele havia dado muito mais motivos ainda. E nem o fato de a amiga estar se preservando para que ele fosse seu primeiro homem fazia com que ela desgostasse de Andressa. Ao contrário, não faria muito ou nenhum sentido ela perder a virgindade para ela. Isto seria muito folclórico. E sua timidez não permitiria que ela ousasse a tanto.

    O professor tinha cada vez mais vez seus planos definidos. E emocionalmente estava vivamente interessado no que a adolescente tinha, de fato, a lhe oferecer. Havia abandonado Talita e Leonardo. Suas conversas com o filho restringiam cada vez mais ao celular e, ocasionalmente, ao MSN. A desculpa era mais que perfeita: o trabalho e a política estavam consumindo todo o seu tempo.

    A ex-esposa sabia que não era isto. Só não fazia idéia que ela era o objeto principal do ciúme da adolescente. Não fazia idéia de que a exclusão de muito da vida do professor era resultado da possessão da jovem. A filha de dona Regina acreditava que era feia perto da exuberância européia da mãe do filho do professor. Ela cansava de repetir a ele:

    - O dia que você se aproximar dela você pode me esquecer. Deste dia em diante eu morri pra você.

   Esta era uma expressão que a adolescente usava com freqüência com Thiago. E o que era mais estranho nisto tudo é que raramente ele esboçava reação. Como ele só se fazia presente na vida dela quando lhe era conveniente, ele tinha medo de perder seu verdadeiro brinquedinho. Além do que ela tinha algo que realmente o interessava tanto quanto o poder e isto, de certa forma, atava o casal. Andressa, por sua vez, sentia-se poderosa em controlar aquele homem. Fingia nem se importar com o fato de ser consumidor de maconha. Até preferia, de certa forma, que fosse assim uma vez que o silêncio tradicional dele arrasava com seu bom humor. O professor era um homem de poucas palavras e mais ação. Isto a deixava possessa, pois era nestas situações que ele demonstrava a ela que ninguém tinha o real controle da situação amorosa em que ambos estavam inseridos.

    Mônica, por seu lado, procurava a melhor maneira de afastar os dois. A cada dia que passava se via mais apaixonada pela adolescente. O problema seria vencer a timidez e se abrir totalmente com ela. A única forma que ela conseguia enxergar era de tomar um porre com a amiga e tentar arrastá-la para um motel, ou na pior das hipóteses, para o seu quarto. Ela só precisaria de uma desculpa perfeita para atrair a quase cunhada para ela.

    Thiago estava cada vez mais obcecado em conseguir a virgindade da nova namorada. Pensava com ele mesmo que após conseguir o que ela mais prometia a ele, seria fácil dele se livrar dela. A idéia era apenas tê-la por perto apenas enquanto lutava para romper aquele hímen. O que não conseguia enxergar era que estava cada vez mais enredado nas artimanhas da namorada. De tal forma, que nem seu jeito mais do que esperto conseguiriam se safar com segurança.

    No entanto as coisas pareciam conspirar a favor e contra ao professor que nem ele percebia. Naquela mesma época, Soraia, uma grande amigo dele apareceu grávida. Mais que isto. Anunciava a todos os cantos que o filho era do professor. Ele tremia de raiva. Sua vontade era partir a cara dela. Se a conversa chegasse até seus novos amigos políticos, isto poderia trazer prejuízos incalculáveis para a sua nova carreira.

    Por sua vez, Andressa percebeu que dessa vez perderia o professor para sempre. Sabia da história de Talita e esta tinha sido fácil tirar da vida dele. Mas agora aparecia outra. E verdadeiramente grávida como ela. Pior de tudo, era tão loira e tão bonita quanto a ex-esposa do professor. Se ela não lutasse com mais garra agora, nem sua virgindade o prenderia a ele. Mais que isto. Como é que iria explicar a todos em sua volta que tinha jogado um partido como aquele simplesmente por causa de um boato de uma possível gravidez. A adolescente começava a surtar nos seus pensamentos. Desesperada, ligou para o professor e vaticinou:

    - Não marca nada pra este final de semana, Thiago. Sexta e sábado vão ser os seus dias...

    - Pára com isso, amor... To tão envolvido com tantas emoções que não sou capaz de suportar um blefe seu.

    - Oh, meu perfeitinho. Sempre disse que ia ser você o primeiro, agora é que to marcando a data...

    O jovem professor tremeu todo em si. Era uma possibilidade real que ele tinha agora. Dessa vez havia sido marcado uma data e isto realmente, ela nunca havia feito. A princípio começou a pensar o que levava com que Andressa tomasse uma decisão como esta tão de repente assim. Depois deixou isto de lado. Importante era o que queria... e se tinha uma coisa que ele queria muito era ser o primeiro homem na vida da adolescente. Mais a mais era uma forma de aliviar da pressão que muitas pessoas estavam fazendo em sua cabeça, diante da possibilidade dele ser o pai do filho de Soraia. Até sua mãe que permanecia á distância já o havia aconselhado a deixar a adolescente e assumir a jovem grávida e sua gravidez. Sim, a decisão da namorada era muito mais a calhar do que ele poderia sequer sonhar...

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