quarta-feira, 7 de julho de 2010

ALFA

    A madrugada de sábado chegava ao fim. Os primeiros raios de sol daquele domingo prometiam ser mais um domingo preguiçoso. Naquele carro imponente, Thiago apenas via as pessoas passarem apressadas como se fossem conquistar algo que desejam ardentemente. Ele, só desejava duas coisas naquele momento. Completar o tanque do seu carro e ir para casa dormir tranquilamente.


      Parou no posto. Enquanto abasteciam seu carro, foi tomar alguma coisa. Tinha passado a noite em uma boate e desfrutado de tudo o que o dinheiro pode oferecer. Bons ambientes, boa comida, boa bebida e mulheres bonitas, sempre disponíveis.


    Pensou em tomar um café, um mate ou coisa parecida. Mas num ato de puro reflexo foi ao freezer, pegou mais uma lata de cerveja e abriu. Sentou em uma mesa. Nunca havia dado a menor importância a regras e leis. Se fosse assim não teria chegado onde chegou. Do lado de dentro daquela conveniência, no conforto daquele ambiente teve uma visão perturbadora: um homem, dormindo em cima de algumas espumas e coberto por uma manta rota. Ao seu lado, duas garrafas da cachaça mais ordinária.


    Aquele homem sempre este ali. Segundo comentários mais maldosos, ele já fazia parte do cenário daquela rodovia mais que movimentada. Apenas Thiago nunca tinha dado muita importância a ele. Aliás, havia muita coisa que ele não fazia questão de prestar atenção. Sua vivência política havia dado a ele esta condição: quanto mais frio você for diante das adversidades, menos se abaterá e muito mais fácil as superará. E se estas adversidades não lhe dissessem respeito, as desprezava o mais rápido possível.


    No entanto, naquele domingo aquele resto de homem chamou sua atenção. Pensou o que levava um ser humano descer tanto assim. Como que alguém podia deixar que a vida se transformasse num inferno?


    Dizia acreditar em Deus muito mais por convenção social do que por convicção pessoal. Sabia da hipocrisia reinante nas religiões mas não era capaz de enxergar a hipocrisia que estava vivendo. Adora toda aquela situação. Havia descoberto que todos os homens tem seu preço e ele tinha condições de pagar a maioria deles. Para alguns, era abominável. Para a maioria, um modelo a ser seguido.


   Perguntou ao frentista quem era e porque estava daquele jeito. O frentista respondeu que não o conhecia direito. Dizia que todos os chamavam de 51 – numa referência a uma marca de cachaça – e que até onde sabia ele havia chegado naquela situação por causa de uma frustração amorosa.


    - Como é que é, me conte isto? Perguntou com um interesse não muito comum para uma pessoa que passou a madrugada em festas.


    Pacientemente o frentista contou o que sabia. Que ele era um mecânico de mão cheia e que ao saber que a mulher o havia traído começou a beber e a prevaricar no seu serviço. Acabou sendo despedido. Continuou a beber e deixou toda e qualquer possibilidade de emprego de lado. O que era para ser de lado, acabou completamente descartado. E para manter seu vício – única razão da sua vida naquele momento – começou a mendigar. E desde então aquela era sua vida.


    Achou ridícula a história. Como alguém poderia acabar naquele estado por causa de uma frustração amorosa? Só podia ser mais um mito que havia se criado em torno de uma figura popular naquela região da cidade. O que Thiago não pensou era no fato de ele sempre abastecer naquele posto – julgava o combustível mais puro da cidade – e nunca ter percebido que aquele homem existia.


    Antes de retomar o  caminho de sua casa, arrumou uma justificativa mais que perfeita para não ter percebido aquele homem:


    - Se não tivesse com a camisa do Flamengo com certeza eu não teria notado aquela figura. Disse para seus botões, como se quisesse dar satisfação a si mesmo da invisibilidade que aquele verdadeiro pária social provocava na maioria das pessoas como ele.


    E como tivesse perdoado a si mesmo pelo fato de ignorar um ser humano de maneira que não se ignora sequer um cachorro sarnento, deu uma nota de dois reais ao frentista, sorriu – como se tivesse dado uma nota de cem – e seguiu para sua casa. Afinal o descanso era mais que merecido depois de tudo o que ele tinha passado naquela noite.

BETA

Entrou no prédio onde morava com a arrogância que lhe era peculiar. Raras vezes cumprimentava, e mais raras ainda falava com porteiros e serviçais do condomínio onde morava. Além do mais estava relativamente “etilizado” para falar com alguém. E sem o mínimo de paciência também.


    Ao chegar ao apartamento, olhou ao seu redor. Ali de certa forma era o mundo onde ele não usava as máscaras. Principalmente as sociais, da qual se tornara um mestre em usá-las e manuseá-las ao seu bel prazer. Morava num apartamento de 180 metros quadrados, com a mãe, dois irmãos adotivos e um irmão consangüíneo. O pai ele pusera pra fora da antiga casa quando começou a ter “status”.


    Thiago era incrivelmente surpreendente. Da mesma forma que agia com o coração com algumas pessoas, era frio, mesquinho, egoísta em relação á maioria delas. Sua história era uma prova cabal disto. Estava com 26 para 27 anos e havia saído de um relacionamento onde tinha dado o melhor de si, mas sofrera a ingratidão da amada.

   
    Ele não perdoava Talita por nada. Sua história tinha sido um misto de amor e ódio que duraram cinco anos. No fundo, ainda sofria com sua ausência, mas tinha optado em esquecê-la se afundado no trabalho. Até aí isto não seria inconveniente algum se não passasse a sentir desprezo pelo ser humano – a começar dele mesmo, sem se dar conta disto – como um todo. Era a soberba encarnada, por assim dizer.


    Ao entrar na sua casa, sentiu um doce aroma de café quente vindo da cozinha. Sua mãe estava acordada, fazendo o ritual que ela seguia durante anos. Preparar tudo para os filhos e agregados. A relação de Thiago com sua mãe era outra prova inconteste do seu temperamento estranho. Ora, era o filho atencioso, dedicado. Ora, fazia dela uma verdadeira doméstica. Ou uma sub-escrava, mesmo.


    Naquele dia, estava estranho. A visão do mendigo tinha sido perturbadora. Entrou na cozinha, deu um frio “bom dia” para a mãe, bebeu o café quente, e deixou um recado taxativo:


   - Vou dormir agora e não quero ser incomodado por ninguém. Nem se acontecer um terremoto ou este prédio ameaçar cair, me acordem.


    Nem sequer um mísero beijo deu em sua mãe. Foi para o quarto. Tirou sua roupa, ligou o computador e entrou no chuveiro. Enquanto se banhava ficou pensando mesmo se a história que o frentista tinha lhe contado poderia ser verdade. Alguém pode chegar á mendicância material por uma desilusão amorosa? Queria realmente esquecer aquilo, mas parecia que uma nova obsessão tomava conta da sua mente, da sua alma.


    Mal se enxugou e nu mesmo foi para a cama. Num último relance, percebeu que Talita estava “on line”. Queria muito falar com ela, mas tinha a plena convicção que ela não merecia mais sua atenção. Por mais que se sentisse, ainda, atraído por Talita não seria justamente ele que daria mão á palmatória e cederia. Ela que remoesse por toda sua vida o dissabor que havia passado.


    Ao perceber que ele estava “on” também, Talita tentou chamá-lo para conversar. Ele mudou o status para ausente e deixou um recado claro: “Fui dormir, não me encham o saco. Quando acordar falo com todos”. Era a maneira gentil que ele sabia de demonstrar afeto para com as pessoas. E se elas não gostassem dele assim que fossem procurar o “caminhão de onde haviam caído”. Sabia que estavam ao seu lado por causa da posição social e econômica que alcançara.


    Deitou e olhou para a tela do computador. Por mais que detestasse a idéia, Talita ainda mexia com seus sentimentos. Isto era o que mais doía nele. Ter que admitir o quanto aquela mulher tinha sido especial em sua vida e quanto ele tinha dado de melhor para ela. E ela simplesmente havia feito com ele o que fez. Não, decididamente o melhor era deixar ela esperando até que ele descansasse. Se, ao acordar ela ainda estivesse “on line”, ele conversaria com ela. Afinal, ele era um homem civilizado – pelo menos ele se julgava assim.


    Virou para o outro lado, tentando desviar a atenção da tela do computador e uma pergunta torturava sua cabeça:


    - Por que, afinal de contas, tive que ligar isto?


    Era extremamente difícil para Tiago admitir a idéia de que ele era uma pessoa absolutamente normal. Por mais que seu ego não permitisse, a essência de homem bom ainda tinha lampejos. Apesar de insistentemente admitir que abstraísse facilmente as coisas, aquela mulher que o esperava no MSN havia mexido profundamente com as razões mais simples que movem um ser humano: as emoções. Sim, são as emoções nossas maiores razões.


    Enquanto lutava contra a vontade de levantar e teclar com Talita, a figura do mendigo voltou á sua mente. Definitivamente, 51 havia mexido com ele. Não que ele fosse fazer qualquer coisa para mudar o destino daquele pobre homem. Ele não era dado a esse tipo de atitudes e não seria agora que começaria a fazer este tipo de coisa. Mas a possibilidade daquele homem se contentar com duas ou três garrafas de cachaça, pão, um colchão de espuma e um “corta-febre” por causa de uma desilusão amorosa tinha feito com que ele repensasse – ou pelo menos começasse a repensar – algumas coisas em sua vida. E, ao começar a refletir sobre algumas coisas altamente relevantes que haviam acontecido, foi vencido pelo sono e adormeceu profundamente.


    Não dormiu nada bem naquela manhã. Primeiro porque não conseguia tirar a imagem do mendigo da sua cabeça. Segundo que o barulho do domingo na sua casa estava mais infernal do que os dias anteriores. Acordou possesso consigo mesmo. Por que não tinha dado dinheiro para que todos naquela casa fossem comer fora e ele pudesse descansar como merecia?


    Mal levantou e percebeu que Talita permanecia “on line”. Ela parecia desesperada para falar com ele. Percebeu que ela mexia, e muito, com ele ainda. Por mais que tentasse evitar o óbvio, ainda a amava. Jamais admitiria isso a ninguém. Até admitir para si mesmo era dolorido, imagine assumir isto aos outros.


    Com cara de menos amigos do que o normal foi até a cozinha – apenas de cueca – tomou mais um café, um suco, comeu algo e foi encarar sua realidade. Saber, de uma vez por todas, o que afinal de contas aquela mulher poderia querer tanto com ele. Sentou na frente do computador, respirou fundo e disse para si mesmo:


    - Seja o que Deus quiser...

GAMA

Sua história com Talita, por si só, daria um romance. Conheceu Talita na Universidade. Eles faziam Psicologia. Coincidência maior. Ambos tinham nascido no mesmo dia. Tinham exatamente um ano de diferença. E no auge das suas vidas – fim da adolescência, início de juventude – acreditando que o mundo universitário fosse sinônimo de maturidade emocional, estabeleceram um romance entre eles.


    E a expressão estabelecer romance é a mais adequada. Não era uma relação afetiva. Era uma relação de dependência, de chantagem emocional. Talita sempre tinha sido – e ainda era – uma menina linda, fruto da cobiça da maioria dos meninos da escola e da rua onde morava. Loira, olhos azuis, quase metro e oitenta, sorriso contagiante. Uma beleza “holywodiana”.

   
    Thiago nunca tinha sido o que se pode chamar de padrão de beleza. Mas seu carisma e simpatia conquistava a todos. Podia parecer contraditório, mas ele já havia sido uma pessoa querida. Hoje, ao contrário, era muito mais temida – e principalmente odiada – pela maioria das pessoas com quem tinha algum tipo de contato.


    Por conta dessa simpatia de outros tempos, ele acabou conquistando o coração de Talita. Mais que isto. Ela acabou conquistando o coração dele. No entanto, depois de algum tempo a relação começou a ficar desgastada. Discutiam com freqüência e os motivos eram os mais banais possíveis. Extremamente possessivo, Thiago queria que Talita o acompanhasse nos lugares onde ele queria estar. Ou então que ficasse em casa. Isto fazia com que ela agisse com rebeldia. Fingia concordar, mas ao virar a esquina ela ligava para suas melhores amigas e ia para onde queria. Principalmente se ela tivesse sido magoada pela grosseria dele. Aí que ela fazia isto com maior prazer ainda. E não fazia questão de esconder dele absoltamente nada disto.


    Cada vez que Thiago descobria que Talita havia “descumprido” suas ordens ele ficava possesso. Mas como ele a amava incondicionalmente acabava tolerando isto. Afinal os dois estavam desabrochando para a vida. Nada mais natural que ambos quisessem descobrir o mundo. Só cometeram o pecado – e o amor não perdoa este tipo de pecado – de cada um querer descobrir o mundo sozinho e não juntos. Isto – na maioria das vezes – é um passo para o fracasso amoroso.


    Para completar a desarmonia que o casal estava vivendo, Thiago desiludiu-se com o curso de Psicologia. Na realidade ele não tinha a menor vocação para ser psicólogo. Era colérico e intempestivo na maioria das vezes. E quando parecia ser racional, no fundo, estava arquitetando algo maquiavélico – no sentido mais pejorativo que esta palavra traz em seu bojo -. O problema seria falar para Talita o que sentia e qual era esta decisão. Nesta ocasião, ele havia feito uma descoberta relevante. Alguns sentimentos adolescentes – como o medo incontido de perder quem amamos – nos persegue durante toda a vida, por mais bem sucedidos que possamos ser ou estar.


    Ainda assim, disse a ela que no final do ano faria um novo vestibular. Talvez até integral como psicologia, para que eles continuassem unidos. Mas que ele não tinha nascido para aquela profissão. E num dos poucos momentos em que a ética se fez presente em sua vida argumentou de modo incisivo:


    - Não acho justo ocupar o lugar de alguém que tenha talento e vocação para a psicologia.


    Este argumento convenceu plenamente Talita. Ele sabia ser persuasivo e para conseguir determinados objetivos até era – ou parecia ser ético – e desta forma a carreira de psicólogo de Thiago tinha chegado ao fim. O que não deu conta é que esta tomada de decisão também iria refletir – e muito – na sua relação pessoal e afetiva. Mas a sua realização sempre esteve e estava acima de tudo e de todos.


    Neste dia, a vida dele deu a guinada para pior que todos achavam impossível que acontecesse. No final daquele ano foi aprovado no vestibular de licenciatura em Química. Nunca tinha pensado em ser professor. Mas tinha a impressão que o magistério tinha um certo poder e isto o interessava muito. Mais a mais, caso também não fosse isto que ele quisesse faria outro curso ou faria bacharelado. Uma coisa estava decidida: nunca mais iria lidar com psicologia na vida.


    O fato de o curso de Talita ser integral e o de Thiago ser noturno provocou um distanciamento entre os dois. Só se falavam por telefones, SMS, MSN e outras formas de tecnologia. Porém o contato corpo a corpo, olho a olho, contato físico, o contato que realmente aquece a relação amorosa e a torna mais intensa e mais plena estava comprometida. E isto a incomodava. Nesta época, a ambição dele – que nunca tinha sido pouca, muito menos comedida – passou a aflorar na sua mente com mais intensidade.


    Começou a trabalhar. Não se fazia de rogado. Podia ter todos os defeitos do mundo, mas era um obstinado pelo trabalho. Além disto, via no trabalho uma forma de ascender na vida. E para quem pretende uma ascensão rápida, a ética não pode ser uma companheira inseparável. Esta foi a equação que ele passou a incorporar na sua vida a partir dali.


    Evidentemente que sua relação pessoal com Talita também entrou em linha de colisão. Se quando os dois estavam unidos ele fazia de tudo para impor sua vontade a ela, não seria agora que ganhava seu próprio dinheiro que as coisas seriam diferentes. Com uma diferença. Agora ela “dependeria” dele. O poder do dinheiro começa a falar mais alto na sua mente. Era o início de uma metamorfose que seria irreversível. Ou será que um mendigo em estado pra lá de terminal poderia provocar esta mudança nele? A vida sempre nos oferece perguntas e quase nunca, respostas.


    Com esta mentalidade, a relação entre os dois ficou ainda mais instável. Ele ganhava pouco, é verdade, mas o pouco que ganhava fazia com que se sentisse poderoso, a ponto de controlar ainda mais Talita. Se no começo ela achava um certo charme esta possessão que ele tinha, agora estava mais que inconveniente, estava insuportável manter a relação.

   
    E como era de se esperar logo houve um grande atrito entre eles. Ela queria ir num grande evento que teria em sua cidade. Além do mais haveria um show da banda Capital Inicial, de quem ela era fã incondicional. Ele simplesmente os achava insuportáveis. A briga foi imensa. Houve a primeira ruptura entre os dois.


    Durante o evento ela conheceu um rapaz. Achou o bonito. Conversaram, beijaram, fizeram amor. E nunca mais um viu o outro. Semanas depois o quase esperado. Talita estava grávida. Do pai da criança ela mal sabia o nome. Pensou em abortar. Desistiu. Sempre foi meio fatalista. Sabia que podia ter evitado aquele filho naquela noite. Por que excluí-lo agora? E munida de uma coragem espantosa teve o filho.


    Mais espantosa ainda foi a reação de Thiago ao nascer a criança. Procurou por ela e a perdoou. Fez mais. Registrou o menino como seu filho. Uma nova lua de mel iniciou na vida daquele casal...


    Ao lembrar do fato mais importante que havia acontecido entre ele e Talita, lágrimas escorreram pelo seu rosto. Fazia tempo que não chorava e – principalmente naquele dia – ele precisava disto. Aos poucos, porém, voltou a ser o homem em que havia se transformado e como Talita demorava para responder a ele no MSN, levantou-se dando um burro na mesa e desabafou:


    - Agora é você quem vai esperar o tempo que eu quiser, sua filha da puta...

DELTA

Saindo daquele monitor estava voltando para o mundo real. Costumava dizer que aquela era a única ficção que ele apreciava. E isto com uma dose elevada de sarcasmo. Pois tratava como ficção pessoas reais. Virtuais, é verdade. Mas que do outro lado do monitor tinham sentimento, coração. Por isto achava tão imbecis as pessoas que caíam em golpes amorosos via internet. Tão imbecis quanto quem caía no golpe do bilhete em plena era da tecnologia de informações.


    O que Thiago demorava a crer – mesmo sendo um fato recorrente em sua vida – era de que sua realidade era muito pior que qualquer depoimento que tivesse lido em qualquer site de relacionamento por onde circulava nos seus domingos. A vida era recheada de boas novidades. Mas sua vida era atribulada demais. E ele conseguia fazê-la ainda mais atribulada do já era normalmente.


    Ao sair do seu mundo particular – seu quarto era literalmente isto e só ele habitava aquele mundo – deu de cara com uma das piores realidades com quem “era obrigado” a conviver: Mônica, sua irmã adotiva. Aquela jovem conseguia irritá-lo com o simples olhar. Naquela manhã, já irritado com o flash-back que tinha tido ao lembrar do início de seu relacionamento com Talita, ela conseguiu ir ao máximo do sarcasmo com ele, ao cinicamente dizer:


    - Bom dia maninho...


    - Antes que eu me esqueça, Mônica, vá tomar no cu com força...


    Os dois se odiavam e – á medida do possível – se suportavam. Ela não queria mais saber de Talita na vida dele. Ele queria que ela desaparecesse como num passe de mágica. Se não fosse a presença da mãe, muito provavelmente os dois já tinham ido ás vias de fato ou pior talvez já tivessem se matado. O que a irmã adotiva não percebia era que – especialmente naquele dia – Thiago estava muito mais alterado que nos dias anteriores.


    A imagem do bêbado e a história que o frentista havia contado a respeito de 51 tinha mexido com ele muito mais do que ele imaginava. Tentando esquecer daquilo foi até a cozinha ver se tinha algo para comer. Eram duas da tarde. Sua mãe, caprichosamente, deixava a comida pronta em um prato. Era apenas esquentar no micro-ondas. E assim mais uma vez almoçou sozinho.


    Neste meio tempo, Mônica sorrateiramente entrou no quarto dele. Viu que o computador estava ligado e que Talita, desesperadamente, tentava falar com ela. Sem pensar muito e com uma agilidade poucas vezes vista ela sentou, abriu a janela e digitou:


    - Faz um favor pra mim. Me erra, me esquece e nunca mais me procure.


    Sem fazer a menor cerimônia saiu do quarto. Ele ainda almoçava. Ela riu baixinho e mais uma vez provocou:


    - To saindo alguém quer que eu traga alguma coisa na hora que eu voltar?


    Thiago retrucou:


    - E desde quando bebum é capaz de lembrar de alguma coisa com a cara totalmente chapada?


    E sem dar muita atenção ao irmão, Mônica saiu. Na realidade ela queria estar bem longe da casa quando ele visse o “serviço” que tinha feito no computador dele. Sabia que ele ficaria possesso. Sabia que até risco de ser agredida fisicamente ela estava correndo. Mas ela não resistia á tentação de provocá-lo. E além de tudo ela cada vez gostava menos dele e a cada dia crescia dentro dela uma vontade enorme de prejudicá-lo. Assim como ele fazia com as outras pessoas.


    Thiago voltou calmamente para o quarto. Na realidade queria ver a reação de Talita. Ela, assim como ele, detestava a idéia de ser deixada de lado. Mas ainda assim ela tentava fazer isto com ele. Dessa forma a possibilidade de os dois reatarem ficava cada vez mais remota.


    Ao entrar no quarto, percebeu que alguma coisa estranha tinha ocorrido. Ele era detalhista e conhecia cada pequeno detalhe daquele verdadeiro “reino” que tinha criado para ele. Notou que a cadeira em frente ao computador não estava na posição que ele deixara. A primeira coisa que pensou foi na irmã. Logo, descartou a idéia. Ela não seria tão insana a este ponto. Ela sabia – como todos naquela casa – que a entrada naquele quarto era restrita a sua mãe. Nem Geralda, a doméstica, podia entrar lá sozinha.


    Achando que estava delirando já com o episódio do mendigo, sentou na frente da tela e começou a teclar com alguns amigos. Mas queria mesmo era falar com Talita. Ela permanecia calada. Não dava sinais que queria falar com ele. Sem se dar conta do que Mônica havia feito, pois a pensar na história que ele tinha construído com a agora quase ex-amante.


    Lembrou que fazia meses que não ia ver Leonardo, filho de Talita  e que ele havia assumido a paternidade. O menino era muito apegado a ele e o chamava de pai com freqüência. Uma ponta de remorso bateu no seu coração. Por mais que tivesse trabalhando poderia arrumar um tempo para ver o menino. E ele sabia que o sentimento daquela criança para com ele era verdadeiro. Esta era uma das poucas relações verdadeiras que Tiago ainda tinha. E num lampejo de “bom mocismo”, ele levantou-se daquela cadeira, trocou-se e foi em direção ao menino. Mal sabia o que estava para acontecer a ele ainda.


    Ao chegar á casa dela viu a criança brincando. Ao vê-lo o menino veio ao seu encontro numa demonstração explícita de felicidade. O que ele não havia entendido era que podemos ser felizes quando amamos apenas trocando olhares. Nas situações menos triviais é que podemos sentir o amor. Para que nas situações corriqueiras nos alimentemos dele.


    O calor do corpo infantil de Leonardo foi um bálsamo para ele. Precisava sentir que ainda era amado. A vida havia endurecido o coração de Tiago. Não que tivesse sido tão cruel assim. Mas ele havia feito a opção por ter e não por ser. E, efetivamente, havia conseguido. Tinha poder, tinha dinheiro, tinha status. Mas não era feliz.


    E aquele abraço fez certa diferença para ele. Talvez até marcasse uma virada em sua vida se não fosse a atitude – mais que previsível – de Talita. Ao tentar falar com ela, simplesmente viu a porta do apartamento bater em sua cara. Ficou pasmo com a atitude. Sabia que ela era de tomar decisões precipitadas. Mais que isto, na hora da raiva fazia besteiras inomináveis. Ao lado dele, pegando em sua mão, estava a maior de todas as atitudes impensadas dela. Mas era aquela atitude que o fascinava nela.


    Porém, percebeu que desta vez a coisa realmente era mais séria do que de costume. Ao entrar na casa, ela simplesmente deu as costas para ele e foi para o quarto. Se para as pessoas comuns ser ignorado é motivo de revanches cruéis, para alguém com o perfil dele era definitivamente o fim. Logo deixou o menino voltar para o parque onde brincava e, literalmente, avançou contra aquela porta.


    Ameaçando derrubar a porta ele proferia juras de amor. Leonardo havia balançado o coração dele. Tentava mostrar a ela que tinha feito pouco caso dela porque tinha agido – mais uma vez – com frieza e estupidez. Para quem o conhecia ficaria a dúvida. Estava ele sendo sincera com ela ou era este mais um jogo para que ela voltasse para seus braços?


    Antes que a dúvida pudesse ser dissipada, Talita abriu a porta e disparou:


    - Por que você não pensa, ao menos uma vez, nos outros? De onde vem este mórbido prazer de pisar, de magoar as pessoas?


    E trancou a porta novamente. A sentença contra Thiago estava lançada. Era tudo que ele não precisava naquela tarde de domingo. Depois da cena que tanto o perturbara, agora tinha uma pergunta que ele sequer tinha a menor pista para chegar á resposta. Mas tinha que ter uma explicação para tanta agressividade. Não que ele fosse um paradigma da bondade, do carinho, do afeto. Mas sempre tinha de ter um porquê para todas as perguntas. E as respostas deveriam ter a mesma velocidade das perguntas.


    Não demorou muito e deixou Leonardo. O passeio tinha – mais uma vez – ficado para outro dia. Agora ele estava mais do que focado em tentar descobrir as respostas para as perguntas agressivas da mãe de seu filho. Chegou na sua casa e sem falar com ninguém deitou na sua cama.


    Trancado no seu quarto procurava as respostas. O que ele havia feito á Talita para ela o tratar com tanta violência? Onde ele havia errado – desta vez – com ela? Aí é que tudo piorava em sua cabeça. Em busca das respostas, mais perguntas surgiam. E isto o irritava profundamente.


    Subitamente, um último reflexo tomou conta de Thiago. Olhou para o computador e percebeu que ele ainda estava ligado. Percebeu que havia esquecido ele ligado e conectado no MSN. Pensou que ali poderia ter alguma explicação para aquela ira toda que Talita havia despejado contra ele horas antes. Mas descartou a possibilidade. Foi até a cozinha. Pegou uma lata de cerveja. Voltou para o quarto. O computador parecia desafiá-lo. Num último reflexo, sentou e foi buscar a resposta para o que mais o afligia. Ás vezes as respostas para nossas perguntas tornam-se nossas algozes.


    Não demorou muito e viu o que Mônica tinha feito. Ela tinha sido tão sarcástica com ele que sequer fechara a janela do MSN. A cólera tomou conta de todo o seu ser. Imediatamente ligou para o celular da irmã. Obviamente, estava desligado. Transtornou-se. Saiu atrás dela, disposto a tudo. Até tirar a vida dela se fosse o caso. Passou em todos os lugares possíveis e imagináveis. Em nenhum lugar teve notícias.


    A primeira coisa que Thiago pensou foi que estivessem escondendo alguma coisa dele. Depois, do fundo do coração, desejou que ela tivesse sido vítima de “seqüestro relâmpago” ou algo assim. Desde que ela desaparecesse da sua vida isto seria um alento para ele. Como não tinha notícias da irmã, passou em um bar, comprou uma garrafa de vodka e foi para casa.


    Entrou no seu quarto e tentou inúmeras vezes ligar para Talita. A cada ligação, um gole. E a cada tentativa, uma frustração. Decididamente ela não queria falar e muito menos vê-lo. Por instantes pensou na semana que iniciaria na segunda feira, nas 72 aulas que tinha pela frente, nas reuniões e no seu futuro político. Mas o que ele queria era ser completamente bem sucedido em todas as áreas da vida. Como se isto fosse possível...

  
    Lentamente foi perdendo as forças. Mônica não chegava. O álcool fazia efeito. As obrigações semanais cobravam o repouso. E antes que desse conta, adormeceu profundamente.

ÉPSILON

Seis da manhã. Acordou cinco minutos antes que o celular despertasse. Seu senso de responsabilidade era maior que seu caráter duvidoso ou que sua ira incontida. A verdade é que ele era um homem ainda novo, com seus 27 anos e uma vontade, uma obsessão pelo poder e pelo status inegável. Isto o fazia suportar a carga de trabalho que tinha.


    Estava agora entrando para o mundo da política. Mas não de forma direta. Jamais teria paciência – e muito menos tempo – para os compromissos e as falácias que fazem o perfil do candidato e de boa parte dos políticos bem sucedidos. Tudo que dissesse respeito á eleição municipal o interessava. Via na política uma forma mais rápida de poder do que através do trabalho.


    Depois de ter deixado o curso de Psicologia, entrou de cabeça no curso de Química e antes de ser contratado por uma multinacional – seu primeiro objetivo – começou a dar aulas. Como tinha mais carisma do que competência, logo começou a ser cortejado pelas escolas de sua cidade.


    Como não se preocupava muito com a questão de companheirismo profissional foi abraçando todas as aulas que lhe foram ofertadas – evidentemente, pelo preço que ele exigia – e foi tirando muitos colegas do mercado. Isto, de certa forma, o excitava. Era a forma mais completa de exercer o seu poder. Não estava nenhum um pouco interessado se prejudicava outro profissional como ele. Usava os colegas para se inteirar de como era o novo ambiente de trabalho e quando todos menos esperavam, justamente os que ele menos gostava eram demitidos. Assim trabalhava – no seu modo de ver – apenas com quem ele queria. E foi desta forma que Thiago chegou a ter 72 aulas por semana.


    Enquanto tomava o café de manhã e engolia as palavras do jornal o telefone tocou. Eram 6:40. Quem poderia ser naquela hora? Não era de chegar atrasados em seus compromissos. Aliás, não suportava atrasos de qualquer natureza. Era um político muito conhecido em sua cidade. Sua fama de corrupto era tão grande quanto sua popularidade. Disse que precisava falar com ele ainda naquele dia.

   
    Seus olhos brilharam diante do convite do político. Sabia perfeitamente da fama que aquele homem gozava. Mas tinha plena noção que exatamente aquele homem poderia ser o canal para sua mais recente ambição: o poder. Não que tivesse poder bastante diante dos seus alunos, colegas, e até com alguns superiores. Mas como costumava dizer para si e para os poucos amigos chegados que tinha:

    - Poder nunca é demais...


    Até começou a degustar o café da manhã. As palavras daquele homem – uma verdadeira ave de rapina, segundo o senso comum – haviam mais que adoçado sua manhã. Subitamente o ódio com que despertara em relação á irmã havia desaparecido. Estranhamente ficara com dó de Mônica. E Thiago cansava de dizer que dó era o pior sentimento que se pode ter em relação a outra pessoa.


    Levantou-se, beijou a mãe no rosto – como só fazia quando estava com extremo bom humor – e foi iniciar sua jornada semanal. Duas coisas passavam a tomar conta dos seus pensamentos desde então: a possibilidade de ascender ao poder político e a figura do mendigo. A esta altura a figura do mendigo não estava mais desassociada á história que o frentista lhe contara. Mais que isto. Passava,agora, a reparar que sua cidade estava cheia de mendigos que amanheciam na rua. Uma verdadeira calamidade social. O que ele não conseguia identificar era quais eram mendigos econômicos e quais eram mendigos sentimentais. Mendigos sentimentais? Só um louco para acreditar que alguém pudesse se tornar mendigo por causa de desilusão amorosa.


    Seu dia passou rápido. Muito mais rápido do que de costume. Porém, as coisas não estavam tão boas para Thiago quanto ele imaginava. Talita permanecia irredutível na sua decisão de não falar mais com ele. Leonardo pedia a presença do pai, mas a mãe impusera que ele ficasse afastado dele. Para piorar ainda mais as coisas, Mônica agora se fazia de arrependida e procurava uma reaproximação com ele.

    
    Ninguém entendia que ele precisava se concentrar no que poderia ser agora sua nova vida. E, pela primeira vez , pediu um favor a um colega de trabalho. Para ele isto era o máximo de humilhação a que um ser humano podia chegar. Pedir um favor a outro? Que cada um cuidasse do seu nariz. O mundo era pequeno para seu ego.


    Enfim, poderia se atrasar na reunião com o tal político e pedira a um colega que desse duas aulas no seu lugar. Ele pagaria a ele. Em novas aulas, não em dinheiro, evidentemente. E no final da tarde foi ao encontro do político com quem conversara pela manhã. Chegou e pediram que esperasse. Ele sentiu um frio de raiva subir a sua espinha. Como esperar? Se tinham marcado com ele ás 17:30 deveria ser atendido no horário. E pela primeira vez começou a temer por não poder com seu sagrado compromisso com o magistério. Mas palavra dada é palavra empenhada. Quase sempre.


    Depois de esperar uma hora e dez minutos – o que para ele era uma eternidade – e de ameaçar várias vezes ir embora e deixar tudo de lado, a porta da sala de Dr. Manoel da Luz abriu e seu secretário particular Marcos Flávio sorrindo veio até ele:


    - Meu caro Thiago Porto! Que bom ter você aqui conosco. Entre que Dr. Manoel precisa falar com você e muito. Garanto que você vai gostar do que vai ouvir...

ZETA

Ao entrar na sala acarpetada daquele homem começou a sentir uma sensação que há muito não sentia. Parecia ser aquele o ambiente certo para ele. Tudo ali estava disposto da forma que ele havia sonhado um dia. Aquilo sim que era ter vencido na vida. A quantidade de quadros dispostos sobre a sala denotava quanto aquele homem era um abnegado pela causa pública. O que o povo dizia a respeito dele só poderia ser inveja, coisa de gente incompetente mesmo.


    Dr. Manoel não era o que se podia chamar de homem culto, ou ao menos letrado. Tinha mal acabado o ensino médio. Alguns até diziam que ele havia “comprado o diploma” . Mas seu carisma era inquestionável. Sorrindo aproximou-se de Thiago, deu-lhe um forte e caloroso abraço e foi saudando efusivamente:


    - Meu caro professor Thiago, que prazer receber o senhor aqui!


    - Bondade, sua, Dr. Manoel. Boa bondade, sua.


    E imediatamente foi colocado em uma confortável cadeira estofada em couro italiano. Até cheiro de status aquela sala tinha. Entorpecido nos princípios elementares da razão – algo parecido com pessoas apaixonadas – foi ouvindo o que aquele homem tinha tanto a lhe dizer. E as palavras cada vez mais soavam adocicadas para ele. O político fez a proposta para que elaborasse – com sua equipe – o plano de Governo para a área de meio ambiente. Humildemente ele tentou alegar que era um químico e que seus conhecimentos nesta área não eram tão vastos assim. Na realidade, estava tentando fazer com que se livrasse da equipe. Ou ele seria o responsável sozinho ou não faria nada.


    Não demorou muito a conversação para que a Thiago saísse – aparentemente – vitorioso. Dr. Manoel acabou por confiar a ele, por uma quantia significativa em espécie, o plano de governo na área de Meio Ambiente. Na realidade, o político tinha um “plano B”. Desconfiado que o professor não fosse capaz de fazer um plano que rendesse votos, pediu a outros – sem remuneração nenhuma – que fizessem o mesmo. E a este prometeu a Secretaria, caso vencesse a eleição.


    Thiago, porém, tinha uma intuição brilhante. Desconfiado da boa vontade do político, debruçou-se no plano de governo com o carinho dedicado á Talita nos primeiros dias e meses de namoro. Queria causar uma boa impressão naquele homem, independente do juízo que seus colegas faziam dele. Queria, de fato, com este trabalho conquistar o político e o cargo prometido a várias pessoas. A sua ambição era desmedida.


    Nos dias que se seguiram, ele se tornou um homem recluso. Pouco era visto na noite. Não perdera a dedicação nem o carisma com o ensino e com os alunos, embora agora considerasse a profissão apenas um segundo plano na sua vida. Estava, literalmente, obcecado pela idéia de fazer o plano e entrar para a política de vez.


    Até seu comportamento, aparentemente, havia mudado. Sua relação com Mônica estava normal. Às vezes até a levava para as baladas da vida. Vez ou outra participava de um churrasco ou de um jantar com amigos. Até a banda de jazz que tinha formado com dois amigos um ano antes tinha deixado de lado. O foco de sua vida agora era o meio ambiente. Ele, justo ele que até há muito pouco tempo atrás chamava ecologistas de “ecochatos”, agora era um homem preocupado com a preservação do meio ambiente como um todo. Teimava em acreditar nisto, mesmo sabendo que era apenas mais um de seus ardis para chegar ao poder. Sua ambição não conhecia limites. Thiago não conhecia limites. Freqüentemente costumava dizer que limites eram paradigmas dos fracassados. Só os ousados, os não limitados é que venciam.


    Depois de longos 28 dias – isto para ele era uma eternidade, e este era um ponto que menos entendia nas mulheres – ele estava com o Plano de Governo na sua área pronto. Terminou de escrever quando o relógio marcava 42 minutos do domingo. Isto merecia uma comemoração. Sem pensar muito, Thiago tomou um banho, perfumou-se, vestiu-se e saiu.


    Não queria ir para os lugares que costumava freqüentar. Queria ver gente diferente. Aliás, precisava exercitar esta veia política que estava brotando nele. Mais que isso, queria testar como ficaria sua popularidade caso seus projetos dessem certos. Neste ponto Thiago – com toda sua arrogância, prepotência e egocentrismo – em nada diferenciava dos homens normais. Queria estar mais do que seguro que seu passo era o correto, que este era o caminho que ele deveria seguir.


    O grande problema era que ele não estava habituado a freqüentar outros lugares onde não era conhecido. Mais que isto. Em alguns lugares que freqüentava costumava dizer que era ele que trazia fregueses para o ambiente. Sua soberba era sua marca registrada. E muito de seus amigos faziam de tudo para que cada vez mais ele se tornasse o homem que era. Poucos davam conta – a começar por ele mesmo – que já era uma pessoa bem sucedida aos quase 27 anos de idade e , no entanto, era um homem só.


    Vagou, vagou, vagou. Em nenhum lugar se sentiu á vontade. Em uns porque achava reles demais para que ele pudesse estar. Em outros, porque seus trajes – extremamente refinados – em nada condiziam com aqueles ambientes. E, por fim, nos demais porque especificamente naquela noite não queria estar. E por estas forças que movem a vida e o destino, ele foi parar na loja de conveniência do posto onde havia visto 51.


    Ao chegar no posto, a primeira coisa que percebeu era que o mendigo não estava lá. Thiago respirou aliviado. Aquele pobre homem não passara de uma miragem de uma manhã de domingo, resultado de uma noitada de sábado regada a um bom uísque, sexo e companhias mais que agradáveis. Porém, a mente esta traiçoeira da alma, fez com ele – ao descer do carro – perguntasse do infeliz para o mesmo frentista que lhe atendera naquele dia.


    - Ih, Doutor... parece que internaram ele de novo.

   
    - De novo? Perguntou ele interessado.
  

    - É, sim senhor. Vira e mexe levam ele prá clínica. Fica lá dois, três meses. Depois volta pra rua. Não adianta doutor. Homem falido trabalha e recupera um pouco o que tinha. Homem sem amor não vale é nada.


    Thiago riu do frentista. Concordou para não ofendê-lo. Afinal estava testando sua popularidade e como seria conviver com pessoas comuns, em ambientes comuns, sendo uma autoridade municipal. Não demorou muito e entrou na conveniência do posto. Também queria ver rostos bonitos. Logo deu de cara com duas meninas conversando. Interessou-se por uma delas e sentou na mesa ao lado.


    Percebeu que falavam e que de certa forma apontavam pra ele. A outra por quem não tinha se interessado tanto ria muito. Ria alto. Isto o incomodava muito. Mas sempre lembrava que tinha que ser polido, educado, cortês. Tinha em mente a obsessão que agora seria um homem público. E tinha que suportar todo o tipo de pessoas.


    Mas as duas falavam e repetiam a expressão Mo. E isto começou a fazer com que ele se irritasse. Não conhecia ninguém com este nome ou apelido. Estava claro que falavam dele, pois com freqüência falavam este nome olhando para ele. Subitamente ocorreu-lhe que poderia estar ficando paranóico. E tentou desviar a atenção das duas. Mas era em vão. A mais nova, loira de olhos verdes havia chamado muito a sua atenção. Não demorou muito e uma foi ao banheiro. A loira chegou próximo dele e com um belo sorriso foi logo perguntando:


    - Você é o irmão da Mônica, né?


    Um ar de decepção ficou estampado no rosto de Thiago. Ele estava interessado naquela jovem. Mas o fato de ela conhecer Mônica punha tudo a perder. Por menos que gostasse da irmã, não demonstrava isto. Não queria que os outros soubessem disto. Ele sentia verdadeiro asco por ela, mas não queria que ninguém soubesse. Não sabia – ou ao menos não tinha certeza – que o sentimento que tinha pela irmã era totalmente recíproco. Ainda assim, lembrou que tinha planos para a vida pública e ser cortês era altamente necessário.


    - Sou sim por que?

    - É que eu e minha namorada somos amigas dela.


    A declaração da loira cortou seu coração. Feriu seu orgulho de macho. Estava mais que frustrado. Então aquela mulher que havia mexido com ele era lésbica? E amiga da sua irmã? O golpe era muito forte para ele. Pegou um pacote com 12 latas de cerveja e foi embora para casa. Decididamente, aquele não era um bom dia para ficar na rua. E tinha conseguido, á sua maneira, o que queria. Viu que o mundo sabia ser tão cruel – ou mais – do que ele era com os outros. E isto, de certa forma, o aliviou.

       
    Chegou em casa, e foi direto para o quarto. O computador ainda estava ligado. Leu e releu o que havia escrito para o político e acariciou como pretendia acariciar uma mulher. De certa forma fez amor com a tela. Depois de se extasiar com o que tinha escrito e com algumas latas de cerveja na cabeça, adormeceu sonhando com seus novos sonhos de consumo. Poder, status, dinheiro. Nesta ordem. Depois viriam os outros. Se ele tivesse tempo e vontade de lembrar dos outros.

ETA

Aquela quarta feira prometia ser diferente das demais. Naquele amplo apartamento, estranhamente todos amanheceram felizes. Thiago estava totalmente concentrado no encontro que teria no final do dia com Dr. Manoel. Ele sabia que aquele encontro poderia ser completamente decisivo para toda a sua vida. Gabriel, ia para a entrevista do seu primeiro emprego. A mãe estava feliz porque raramente aquela cena era comum. Nem mesmo em datas como Natal e Ano Novo era difícil ver a casa harmônica daquela forma. Ela rogou a Deus para que os dias fosse mais assim em sua vida.


    Para se ter uma pequena noção de como o dia amanhecera diferente, Thiago ofereceu uma carona ao irmão. Estava orgulhoso dele, logo cedo ir procurar um emprego. No fundo sentia-se levemente aliviado. Seria menos um fardo a sair de suas costas. E teria mais tempo para cuidar dele mesmo. Ainda mais com a vida que se anunciava agora pra ele.


     Para completar a manhã de paz, Mônica também acordou feliz. Mas pendurada no celular. Falava muito com uma amiga: Andressa. E parecia cada vez mais interessada em falar com ela. Sua mãe estranhou tanta felicidade e tanto interesse em encontrar alguém. Será que Andressa seria uma possível nova chefe para ela? Seria bom, porque ela já estava cansada do tipo de vida que a filha levava.


     Totalmente alheia a tudo, Mônica estava cada vez mais interessada em falar com Andressa. Sabia que a amiga serviria perfeitamente para seu plano mais sórdido, mais brilhante, mais genial. E a amiga era perfeita em todos os sentidos para ajudá-la a desenvolver seu plano de ódio, rancor. Uma movida pela inveja, pela sensação de poder tripudiar Thiago. Outra uma pessoa ambiciosa, com altas tendências arrivistas. Era uma união mais que perfeita.


    Naquele dia, após passarem a noite no MSN e trocando mensagens por celular se encontraram. Mônica começou, naquele encontro, por seu plano em ação. Andressa, falsamente insegura foi logo perguntando: 


    - Mas Mônica, será que ele vai se interessar por mim?


   - Claro que vai. Ele amava de paixão aquela idiota da Talita. Nunca entendi direito aquela relação. Mas não suportava aquela mulher. Agora você não. Você é especial, legal. Tenho certeza que em menos de um mês ele ta apaixonado por você.

     
    - Não sei. Só falo com ele por MSN e nem sei se ele se liga tanto em mim assim.


    - Faça sua parte que da minha eu cuido. Logo apresento um para o outro.



    Andressa deu um sorriso de felicidade e insegurança. Ainda iria completar quinze anos mas já tinha uma dose de ambição que em muito era semelhante á de Thiago. E como a oportunidade aparecera sem que ela consumisse muito tempo e muita energia, não abriria mão disso por nada. Quem sabe ela descobria o amor com Thiago. E se não fosse amor, que fosse pelo dinheiro e posição que ele sustentava. O mundo começava a conspirar contra ele...

THETA

Ao entrar no escritório político do Dr. Manoel, sentiu um certo clima de hostilidade no ar. Thiago estava acostumado a este tipo de situação. Mas como havia depositado todas as fichas naquele projeto, não teve como conter sua decepção. Depois riu da sua inocência. Como esperava ser bem recebido ali? Ele havia descartado várias pessoas para fazer aquele trabalho sozinho. Logo, deveria esperar por aquele clima.


    A secretária do velho político, ao contrário dos demais, era a única pessoa simpática com ele. Logo ele começou a olhar com outros olhos para ela. Desejo lascivo mesmo. Ele era assim, uma verdadeira criança para certas coisas. Quando queria determinada pessoa fazia de tudo para ter. Depois, num ato tipicamente pueril, descartava como se fosse um brinquedo velho. E aquela mulher havia se tornado para ele um sonho de consumo naquela hora.


    Enquanto aguardava ser atendido, percebeu que seu celular vibrava sem parar. Foi ver quem podia ser a pessoa mal educada que ligava sem parar para ele. Quem o conhecia, sabia que ele só atendia as ligações que queria. Evidentemente ficava possesso se as pessoas não fizessem o atendessem quando ele ligava. Era capaz de fazer verdadeira tortura psicológica com quem não atendesse sua ligações.


    Para sua surpresa era Talita. Fazia um bom tempo já que ela não dava notícias e aquilo causou grande espanto nele. A primeira reação de Thiago foi de não retornar a ligação. Depois lhe ocorreu que pudesse ser alguma coisa ligada a Leonardo. E imediatamente ligou para ela. Para sua surpresa não era nada com o menino, era ela mesmo que precisava falar com ele. E com uma certa urgência.


    Estranhou. Ela não era dada a este tipo de coisas. Gostava de falar tudo na cara, não por telefone. Afinal o que poderia ser tão urgente assim? Quando ele queria falar com ela, isto não era prioridade. De repente, do nada, passava a ser. Seria uma trégua e uma nova chance para a felicidade? Era melhor não pensar nisto e concentrar-se somente naquela reunião que poderia mudar sua vida.


    E foi exatamente isto que Thiago fez. Leu e releu várias vezes o projeto que havia feito e se empenhado para fazer. Era muito crítico com suas coisas, mas daquele trabalho em particular havia gostado – e muito – e não via onde aquele político não pudesse gostar. Até porque até onde ele tinha conhecimento. Dr. Manoel não era dado a seguir planos de governo. Fazia por mera convenção política. Para mostrar principalmente para mídia que não era o demagogo que pintavam.


    Depois fez uma pequena reflexão. Nunca havia votado em plano de governo nenhum. Tinha votado no candidato por quem tinha mais simpatia. Este era seu critério e , evidentemente, media os outros por si mesmo. Desta forma, não tinha porque o “seu” plano de governo não ser acatado por aquele político.


    Não demorou muito e o secretário particular de Dr. Manoel chamou-o na sua sala. Seria este um bom sinal? Não para ele. Gostava sempre de falar com o chefe. Subalterno ao chefe seria apenas ele. Demais subalternos estariam sempre – no máximo – no mesmo plano que ele. E por isto não deveriam ser portadores de nenhum tipo de notícia. Nem boa, nem ruim. Ainda assim, forçou um sorriso e foi até a sala onde estavam lhe esperando.


    Mal entrou e já foi ouvindo:


    - Meu caro professor Thiago Porto. É uma honra tê-lo aqui. Sente-se que Dr. Manoel vai falar com o senhor logo, logo.


    E antes que tivesse tempo de responder, o secretário já emendou uma nova pergunta:


    - E o plano ficou bom?


    A pergunta irritou Thiago profundamente. Como, ficou bom? Quem era ele pra perguntar isto? Não passava de um reles assessor. Por que justamente um nada, um zero á esquerda queria saber daquele plano. Rapidamente se recompôs. Esta era outra habilidade que ele possuía. Como nunca se mostrava inteiro pra ninguém, rapidamente reassumia o controle de seu temperamento. Raríssimas pessoas de fato o conheciam e isto dava um certo orgulho para ele. Não querendo perder para o assessor, respondeu que o plano tinha ficado bom.


    - Posso ler? Intercedeu o assessor


    A cólera tomou conta dele. Ainda assim, foi polido:


    - Melhor esperar Dr. Manoel ler primeiro. Vai que ele não gosta, assim não passo mais vergonha ainda.

    - Tenho certeza que está perfeito. E mais a mais vou acabar lendo, mesmo...


    A resposta foi com uma lâmina afiada contra ele. Ia responder á altura, perder a paciência quando surgiu o velho político. Abraçou-o com a mesma alegria do primeiro encontro e foi logo perguntando pelo programa de governo. Triunfante entregou para Dr. Manoel, e ainda olhou com ar desafiador para o assessor. O político leu com uma atenção poucas vezes vistas. Thiago sofreu naqueles poucos instantes que aquela verdadeira ave de rapina lia seus escritos mas logo aliviou-se ao ouvir:


    - Perfeito, professor. Quando que o senhor pode entrar em nossa campanha?

IOTA

A notícia de que Thiago tinha entrado para a política espalhou-se logo no meio em que ele vivia. Não demorou para que algumas pessoas o pressionassem a sair candidato a vereador. No entanto, ele mais que ninguém queria distanciamento de certas coisas. E uma delas era ter contato físico com pessoas numa campanha política. Sabia ser falso mas não a este ponto. E logo foi descartando a possibilidade de entrar na vida pública pelo voto.


    No entanto uma coisa o estava aborrecendo muito. Sua relação com Talita caminhava irremediavelmente para o fim. E isto sim o aborrecia. Ele realmente amara aquela mulher. A ponto de assumir o filho dela como seu. E agora a via saindo de sua vida. Isto realmente o abalava. Nem mesmo a possibilidade de ascensão social o fazia feliz naquele momento.


    Alheia a tudo isto, Mônica preparava ardis para conseguir efetuar seu plano de destruir a vida de Thiago. E a cada dia mais se aproximava de Andressa. Mais que isto, cada dia mais fazia com a amiga se interessasse pelo irmão. E isto sim, era interessante. O que Mônica não havia calculado é que o ser humano é imprevisível. Até mesmo quando se pensa ter o controle real da situação.


    Talita por sua vez, acreditava num recomeço na sua vida. Sem a presença de Thiago. Percebera ao longo dos cinco anos de seu relacionamento que tudo ao seu lado era desgastante. Ela precisava de alguém de carne e osso ao seu lado. E ele estava longe disto. Ao contrário, tudo tinha que ser de acordo com suas vontades. O mundo tinha que girar em torno dele mesmo. Ela tinha se cansado de ser mais um brinquedinho nas mãos dele. Cansou de fazer todas as suas vontades. Teve uma época que até achou um certo charme sentir-se o objeto dele. Porém a monotonia de ser só a coisa – como condena  Sartre – havia chegado no seu ápice.


    Dentro deste quadro estava instalada a nova vida dele. Se por um lado existiam grandes possibilidades de ascensão social, por outro conspiravam contra ele em todos os sentidos. E sua arrogância não permitiam que enxergasse a nova realidade que estava sendo desenhada em sua frente.


    Tentando esquecer o rompimento definitivo com Talita, preferiu voltar todas suas forças para a campanha eleitoral que se avizinhava. Sua obsessão por status e poder eram maiores do que qualquer adversidade pela qual poderia, eventualmente, estar passando. E era nisto que devia se concentrar de corpo e alma.


    Claro que dedicar-se com tanto afinco á possível vida pública, o faria comprometer a qualidade de suas aulas. Ele carregava o orgulho pessoal de ser um profissional que desfrutava de grande popularidade junto a seus alunos. E perder popularidade junto a alunos é como não cultivar um amor. Aos poucos tudo vai-se diluindo até chegar ao nada absoluto.


    Thiago não tinha – ainda – se  dado conta de que era praticamente impossível conciliar boas aulas a uma dedicação intensa á carreira política, ora em “gestação”. E desta forma, seguindo mais sua obsessão pessoal do que seu instinto pessoal e profissional, sua convivência com os alunos e – consequentemente – sua popularidade com os alunos foi despencando. Por outro lado, cada dia tornava-se mais próximo dos caciques eleitorais da coligação apoiava Dr. Manoel. Logo, a indicação para o cargo de Secretário Municipal seria apenas uma questão de tempo. E esperar não era nada que ele apreciava.

   
    Para tentar aliviar um pouco a angústia da espera, resolveu ficar mais no MSN. Dizia para si mesmo que era uma forma de aliviar a tensão e fazer com que a angústia da espera diminuísse. No entanto, estava sendo totalmente displicente com sua carreira profissional. E além do mais, o mundo virtual apresentava a ele uma novidade cada dia mais agradável e cada vez mais interessante: Andressa, uma adolescente de 14 para 15 anos. Doze anos mais nova que ele. Precisava de motivação maior para isto?


    Com certeza, não. E isto o fazia ter motivação para encarar o seu dia a dia. Thiago mais uma – ou seria a primeira? – vez sentia-se humano como as demais pessoas. Percebeu que pessoas tidas como normais, são muito mais produtivas quando estão motivadas por alguma coisa. Normalmente de ordem emotiva. Ele só conseguia se motivar fazendo dos outros o que queria. E agora estava ali, na frente do computador, prostrado diante daquela adolescente.


    O que mais o fazia se interessar por ela era que ela tinha gostos afins. Pelo menos era o que ela dizia. E ele acreditava piamente. Via em cada palavra teclada toda a sinceridade que se possa existir num ser humano. E ela, afinal era um pré-adolescente. Engatinhando na adolescência. Não podia esperar nada dela que não fosse a mais pura honestidade de sentimentos.


    Não percebia que estava sendo cegado pelo claro interesse que Andressa tinha pela condição financeira que conquistara através do trabalho. Nem se dava conta que a presença daquela jovem na sua vida era fruto de uma sórdida armação arquitetada pela sua irmã adotiva para vê-lo no chão. Pisado por todos como ele adorava pisar nos outros. Esta era uma das raras vezes que ele não desconfiava do ser humano. E este seria um dos primeiros erros crassos que cometeria em sua vida.


    Mônica começava a sentir o gosto que Thiago mais nutria dentro de si: a capacidade de manipular as pessoas de acordo com seu bel-prazer. Via seu irmão cada vez mais aos pés da amiga, agora quase namorada que ela havia “providenciado” para ele. E ria muito da patética situação em que ele estava cada vez mais se enfiando. Achou muito mais divertido o dia em que o viu ligando para seus amigos e tentando retomar a banda que eles tinham. Estava na cara que isto era mais um gosto dela que ele fazia. E isto fazia com que ela delirasse de satisfação.


    Estava mais que na hora de providenciar um encontro entre os dois e fazer com que a relação entre eles fosse de fato, estabelecida. Assim, teria o irmão adotivo de vez em suas mãos. Aos poucos ela também ia descobrindo que podia ser tão sarcástica quanto ele. E isto também fazia muito bem a seu ego.

    
    Perigosamente alheio a tudo isso, ele procurava apenas se concentrar nas suas aulas e no plano de governo. Sentia que a coisa estava muito amarrada para seu gosto. Gostava que as coisas desenrolassem logo, de preferência á sua maneira. Assim poderia manipular melhor a situação. Começou a acreditar que a idéia de retomar a banda fosse realmente sua e passou a gostar dela. Se tivesse a menor idéia que a esta altura já estava sendo manipulado por uma pré-adolescente rebelaria consigo mesmo. E desta forma os ensaios recomeçaram...


    Junto com os ensaios, passou novamente a freqüentar raves. Mais que isto, deixou um pouco a política de lado e voltou a viver a vida como vivia antes. Redescobriu nas raves o sexo livre, uma vez que  era mais comum e liberado. Outra redescoberta que fez foi a da maconha. Costumava dizer que usava a erva apenas para relaxar. Se aquilo era verdade, estava relaxando demais ultimamente.


    Mônica descobriu mais este “lapso” de Thiago e viu que este era o momento certo de agir. Ligou para Andressa e marcou de se encontrar com ela. Disse abertamente que queria definir com ela uma hora e lugar para que os dois se conhecessem. Sorriu ao ouvir da adolescente que ela estava mais do que ansiosa por aquele encontro. Doces palavras para uma mente sórdida. Uma combinação praticamente letal para qualquer ser humano.


    Na escola, as pessoas – professores, alunos e principalmente a direção – começam a perceber os sinais de transformação que o professor apresentava. Costumava chegar em cima da hora, com olheiras, ar de ressaca. Até uma certa barriga – para quem era altamente vaidoso com a parte física – começou a ser notada por todos. E o estranhamento das pessoas em relação a ele aumentava a cada dia...


    Por sua vez, o jovem professor tinha apenas duas coisas em mente: Conhecer Andressa a todo custo e que os homens da política apresentassem logo a ele um plano de ação para que ele pudesse mostrar toda sua capacidade. Não estava mais se dando conta das coisas que aconteciam á sua volta. E as que estavam prestes a acontecer,  ele não dava a menor importância. Sua capacidade de concentração nos pequenos detalhes – outra coisa da qual fazia questão de contar vantagens aos outros – estava cada vez mais afetada. Só Thiago não percebia isto.

  
    Não demorou muito para que Mônica e Andressa sentassem e combinassem os detalhes do encontro da adolescente com o irmão adotivo. Tinha que parecer uma coisa do acaso, no entanto, a arrivista deveria despertar no professor cada vez mais vontade dele desejar tê-la como namorada mas nada virtual uma coisa real, efetiva.


    Os olhos da adolescente brilhavam diante das idéias que borbulhavam da mente da amiga. Queria bem aquela mulher. Tinham uma amiga em comum e esta era totalmente liberada e liberal. A estudante parecia tender para o mesmo caminho. A irmã, contudo, ficava ruborizada cada vez que entravam em assuntos mais picantes.


    As conversas no MSN foram se tornando mais quentes. Aos poucos a presença de Talita ia ficando mais vaga em sua memória. Mas nunca o suficiente para esquecê-la. Ainda procurava nos seus arquivos e no Orkut, fotos dos dois juntos para tentar reaquecer a velha chama. Cada vez que ele mostrava as fotos para ela, esta se remoia de ciúmes, mas fazia de tudo para disfarçar. E aos olhos daquele novo apaixonado ela conseguia seu intento.
        

    O que faltava era que Thiago baixasse a guarda de vez. E isto não demorou muito a acontecer. Um convite para assistir a um ensaio da banda foi evitado num primeiro momento. Uma dose – rara é verdade – de sinceridade bateu em Andressa. Mas foi só comentar o assunto com Mônica que foi convencida a aparecer na casa onde eles ensaiavam. A desculpa perfeita? Além de conhecê-lo pessoalmente as duas poderiam desfrutar da linda piscina que o amigo tinha em casa.


    E assim foi feito...


    No sábado que se seguiu a tarde estava mais que propícia a um bom banho de piscina. Thiago e seus amigos ensaiavam quando sua irmã e a nova mulher que povoava seus pensamentos chegaram. O coração do professor veio á boca. Sua mão começou a transpirar. Corou. Todos perceberam que ele estava com cara de homem apaixonado.


    A primeira coisa que ocorreu no pensamento de todos é que aquela menina nova seria a vítima mais recente dele. Todos conheciam o gênio daquele homem e sabia que ele tinha um prazer sádico em dominar as pessoas e vê-las se anulando para agradá-lo. Se Talita que era mais esperta e mais geniosa não conseguia ter vida própria não seria aquela pobre adolescente que controlaria sua maneira de ser.


    A primeira reação de Andressa foi de asco. Fisicamente, ele estava longe de ser o seu príncipe encantado. Porém, como estava interessada apenas nos seus bens e em tirar o maior proveito da situação financeira dele, isto poderia até ser tolerado. Depois ela se livraria dele. Afinal ela não estava disposta a amarrar sua vida com uma pessoa quase 13 anos mais velha que ela. Queria desfrutar do melhor da vida até que ela mesma fosse auto-suficiente para conduzir seu próprio destino.


    Thiago estava encantado. Ela era alta, olhos verdes que brilhavam ainda mais quando se olhava para ela fixamente. Por um momento – um dos poucos momentos em que ele tinha isso – apenas pensamentos bons dominaram sua mente. O mesmo não se podia dizer dela. De certa forma, naquele cruzar de olhares os destinos estavam se unindo e conspirando contra os dois sem que ambos dessem conta disto.


    E, naquela tarde ensolarada de sábado os olhares se cruzaram dando início ao auge e a decadência, ao princípio e ao fim, ao ser e ao estar, ao ter e ao existir, ao alfa e o ômega de duas almas que visavam apenas e tão somente seu interesse interior, custasse o que custasse.

KAPPA

Deste dia em diante, Thiago passou a freqüentar, com mais assiduidade, o MSN. Tinha motivação para isto. Andressa, por sua vez, estava cada vez mais empolgada com a possibilidade de ter realmente um namorado para valer. E principalmente que tinha uma certa condição financeira. Isto sim era um estímulo. Não demorou muito para criar coragem e ir até a mãe dar a notícia:



    - Mãe queria falar uma coisa com você.


   - Fala, filha. Respondeu Dona Regina com o mau humor que a caracterizava,


    - To namorando.


    - É? E quem é o moleque?


    - Não é moleque. Ele já é homem. Tem 27 anos, é professor e já tem até carro e apartamento. E é solteiro.


    Os olhos da mãe brilharam diante das últimas informações. Sempre acreditara que aquela filha ia dar gosto a ela. Era excelente aluna, ajuizada, trabalhadora. E cuidava de Magali, sua irmã que tinha uma vida toda errada. E agora estava começando namorar um homem feito na vida. Isto sim era pensar no futuro. Rapidamente, praticamente sem pestanejar quis saber os detalhes de como era o rapaz, de tudo o que ele fazia, enfim queria todos os detalhes do futuro genro.


    Totalmente concentrado – novamente – no seu trabalho e agora pensando cada vez mais na sua namorada, Thiago seguia sua rotina sem esconder sua profunda irritação com o mundo da política. Só não tinha procurado o político veterano e dito umas verdades a ele porque estava totalmente focado em Andressa. Queria por que queria cada vez mais aquela menina. E depois estava na hora dele desfrutar de uma realidade inerente, segundo seguiu amigo Ruy. Todo homem tinha um cabaço para desvirginar no mundo. E aquela menina seria dele.


    A adolescente estava cada vez mais incorporando a figura da menina apaixonada para o novo namorado. Cada vez mais o clima ia esquentando entre os dois. Fosse pessoalmente, fosse via MSN. A relação, aos poucos, estava se enquadrando ao que ele desejava. E fugindo das mãos dela cada vez mais.


    Não demorou muito para que ocorresse o primeiro encontro entre ele e Regina, a futura sogra. A reação não podia ser das melhores. Em muito pouco tempo os dois conversavam animadamente como se fossem velhos conhecidos. A filha olhava tímida e receosa para aqueles dois. Mal ouviu-se os pneus do carro saindo de frente daquela casa e a mãe disparou:

    - Se você perder um homem como este, nunca mais falo com você minha filha!


    Andressa sentiu um frio percorrer sua espinha. Apesar da deliciosa sensação que tinha de ter um homem financeiramente resolvido em suas mãos era deliciosa. No entanto, estava entrando gente demais naquela relação e, pela primeira vez, temeu por seus planos não darem certos. E começou sentir na pele as contradições do ser humano ao descobrir-se feliz e temerosa ao mesmo tempo.


    As coisas ficaram piores quando Thiago – tomando as rédeas da situação, como de costume – propôs um pacto para a jovem. Quando um tivesse empatando a vida do outro que sinalizasse para que pudessem sair reciprocamente daquela relação sem futuros traumas. Ela prontamente aceitou o pacto. Só as leituras do pacto foram diferentes. Para ela, era uma senha para retomar sua liberdade a qualquer momento. Para ele era uma promessa que ela seria exclusivamente submissa a ele pelo tempo que ele quisesse.


    Alheia a tudo isto, Mônica vibrava com a nova situação do irmão. Havia conseguido o que queria. Tinha afastado definitivamente Talita da vida dele. No entanto, coisas estranhas estavam acontecendo com ela. Cada vez se sentia mais atraída pela amiga – agora quase cunhada – e nesta mesma condição cada vez mais nutria o ódio pelo irmão. Mais que isto. Cada vez mais estava repudiando qualquer pessoa do sexo masculino.


    Ele, por sua vez, era cada vez mais simpático com Dona Regina. Esta cada vez mais se encantava com ele a ponto de defendê-lo de tudo e de todos. Não foram poucas as vezes que ela assumiu a defesa dele para condenar a filha. Via, efetivamente, uma possibilidade de dar um futuro real e concreto para Andressa. E nada nem ninguém a impediria disto.


    Obcecada pela idéia da mãe, a adolescente lutava com unhas e dentes para que Thiago não vazasse pelo vão dos seus dedos. Sabia da fama que ele tinha de usar as pessoas e ela não se permitiria a isto. Seria muito mais fácil ela tê-lo aos seus pés do que ele fazer algo parecido com ela. Sem pestanejar muito, ligou para a amiga e irmã do agora recém namorado e marcou de ir na casa dele. Os objetivos eram duplos: fazer uma surpresa e começar a travar um grau de amizade com a sogra, Dona Marli.


    Mônica desta vez caiu na conversa da amiga e a introduziu na casa. Se o ponto de discórdia entre os irmãos já era tênue, depois deste ato, tornou-se transparente:


    - Que idéia imbecil foi esta de trazer a Andressa aqui pra casa?


    - Eu pensei que você ia gostar, maninho?


    - Das minhas coisas cuido eu. Principalmente as pessoas que trago aqui em casa.


    - Ta amargo, hein?

   - Me esquece, Mônica, me esquece...


    Thiago era assim. Todas, sempre as suas coisas tinham que estar sob o seu controle. Qualquer coisa que ele não tivesse programado, sua irritação transbordava. E aí se tornava cada vez mais agressivo. E quando as coisas o surpreendiam ele era capaz de qualquer coisa para se fazer notado. O mundo tinha que girar ao seu redor, sempre.


    Entrou no MSN á procura de Andressa. Ela não estava. Tinha percebido pela fisionomia dele que não havia gostado nada da surpresa que ela havia programado para ele. Estava preparando uma forma de reaproximar dele e de forma cada vez mais definitiva. Em compensação, Talita estava “on”. Estranhamente sentiu seu coração disparar. Pensou ter o controle de suas emoções, mas viu que as coisas não eram bem assim.


    A conversa com a ex foi tensa. Percebeu que os sentimentos dela estavam cada vez mais frios em relação a ele. Que se não fosse por Leonardo certamente ela o teria abandonado. E pela primeira vez sentiu remorso de suas atitudes. Só não entendia por que aquela mulher ainda mexia tanto com ele assim. Que sentimentos, afinal doido poderia ser aquele?


    Regina percebeu a filha angustiada. Notou que ela queria entrar no MSN mas não tinha coragem. Foi perguntar para a adolescente. E a filha abriu o jogo. A ira tomou conta da mãe. Como que sua filha preferida e mais inteligente podia ter sido tão inocente assim? E depois de uma discussão como nunca tinha tido antes com ela, vez com que Andressa enxergasse que para conquistar de vez Thiago tinha que ser ou pelo menos se fazer de difícil, dissimulada, até cínica se fosse o caso. Só não poderia perder um “partido” como aquele.


    Mônica estava se remoendo na dúvida que estava encarcerando sua alma. Afinal de contas o que poderia estar acontecendo com ela? Não entendia nada do que estava acontecendo com ela. Desesperada abriu o MSN em busca de respostas. Não demorou muito para que Andressa a chamasse “of line”.  Estranhou porque raramente a amiga conversava com ele neste status. No entanto, respondeu. E sem se dar conta estavam as duas conversando animadamente.


    Thiago levantou e foi procurar alguma coisa na geladeira para comer. De repente ouviu sons vindo do quarto da irmã. O que poderia ser aquilo? Percebeu que ela teclava divertidamente do computador do quarto dela. Isto não o incomodaria em nada se não fosse a música que tocava. Era algo que ele já conhecia de algum lugar. No entanto não lembrava de onde. Isto sim o incomodou.


    Não encontrou nada de interessante na geladeira. Estava entediado demais com tudo aquilo. O sentimento que nutria pela adolescente era algo que ele não estava gostando. Não que não fosse uma sensação boa. Ao contrário, era sim. Mas era algo que estava fugindo completamente ao seu controle e isto sim o irritava profundamente.


    Pegou uma lata de cerveja e ficou tentando encontrar uma explicação para tudo aquilo. Tinha que montar oito provas para a semana seguinte mas não tinha a menor paciência para debruçar-se em cima de fórmulas e questões. Era exigente demais consigo mesmo. Nunca haviam questionado o conteúdo de suas provas. Sequer um mísero erro de digitação havia sido constatado em seus originais. Tinha noção de sua responsabilidade. Mas sua perfeição com as coisas e sua obsessão em cada vez mais ser notado por ser impecável em sua profissão era maior que tudo. E ele não ia deixar um pequeno deslize da sua parte – uma pequena paixão – atrapalhar o que ele havia levado anos para construir.


    Seus pensamentos vagavam longe, em busca de algo que ele havia perdido há muito tempo: ele mesmo. Subitamente uma música toca no computador de Mônica. Esta ele conhecia e muito bem. Era uma música que tinha muito em comum com os dois novos namorados. Um misto de alegria e ira extrema tomaram conta de Thiago. Levantou-se rapidamente e foi até o seu computador. Para ele, Andressa continuava com status “off line” . O sangue ferveu-lhe:

  
    - Detesto palhaçada mocinha. Se você quer brincar com minha cara é melhor me esquecer desde já. Pensar que você quase conseguiu me pagar de otário. Espero que esteja aqui amanhã com uma boa explicação para esta palhaçada. Se cuida. Até mais...


    E, completamente possuído pela raiva desligou o computador e foi tentar dormir porque afinal o dia seguinte prometia ser dos mais intensos e dos mais cansativos que teria pela frente. A adolescente sequer podia imaginar, mas aquela atitude de defesa a transformara – a partir daquele dia – na mais nova vítima dos caprichos e das vontades do professor. Estava, com a atitude típica da sua idade, irremediavelmente presa aos caprichos dele.