quarta-feira, 7 de julho de 2010

ZETA

Ao entrar na sala acarpetada daquele homem começou a sentir uma sensação que há muito não sentia. Parecia ser aquele o ambiente certo para ele. Tudo ali estava disposto da forma que ele havia sonhado um dia. Aquilo sim que era ter vencido na vida. A quantidade de quadros dispostos sobre a sala denotava quanto aquele homem era um abnegado pela causa pública. O que o povo dizia a respeito dele só poderia ser inveja, coisa de gente incompetente mesmo.


    Dr. Manoel não era o que se podia chamar de homem culto, ou ao menos letrado. Tinha mal acabado o ensino médio. Alguns até diziam que ele havia “comprado o diploma” . Mas seu carisma era inquestionável. Sorrindo aproximou-se de Thiago, deu-lhe um forte e caloroso abraço e foi saudando efusivamente:


    - Meu caro professor Thiago, que prazer receber o senhor aqui!


    - Bondade, sua, Dr. Manoel. Boa bondade, sua.


    E imediatamente foi colocado em uma confortável cadeira estofada em couro italiano. Até cheiro de status aquela sala tinha. Entorpecido nos princípios elementares da razão – algo parecido com pessoas apaixonadas – foi ouvindo o que aquele homem tinha tanto a lhe dizer. E as palavras cada vez mais soavam adocicadas para ele. O político fez a proposta para que elaborasse – com sua equipe – o plano de Governo para a área de meio ambiente. Humildemente ele tentou alegar que era um químico e que seus conhecimentos nesta área não eram tão vastos assim. Na realidade, estava tentando fazer com que se livrasse da equipe. Ou ele seria o responsável sozinho ou não faria nada.


    Não demorou muito a conversação para que a Thiago saísse – aparentemente – vitorioso. Dr. Manoel acabou por confiar a ele, por uma quantia significativa em espécie, o plano de governo na área de Meio Ambiente. Na realidade, o político tinha um “plano B”. Desconfiado que o professor não fosse capaz de fazer um plano que rendesse votos, pediu a outros – sem remuneração nenhuma – que fizessem o mesmo. E a este prometeu a Secretaria, caso vencesse a eleição.


    Thiago, porém, tinha uma intuição brilhante. Desconfiado da boa vontade do político, debruçou-se no plano de governo com o carinho dedicado á Talita nos primeiros dias e meses de namoro. Queria causar uma boa impressão naquele homem, independente do juízo que seus colegas faziam dele. Queria, de fato, com este trabalho conquistar o político e o cargo prometido a várias pessoas. A sua ambição era desmedida.


    Nos dias que se seguiram, ele se tornou um homem recluso. Pouco era visto na noite. Não perdera a dedicação nem o carisma com o ensino e com os alunos, embora agora considerasse a profissão apenas um segundo plano na sua vida. Estava, literalmente, obcecado pela idéia de fazer o plano e entrar para a política de vez.


    Até seu comportamento, aparentemente, havia mudado. Sua relação com Mônica estava normal. Às vezes até a levava para as baladas da vida. Vez ou outra participava de um churrasco ou de um jantar com amigos. Até a banda de jazz que tinha formado com dois amigos um ano antes tinha deixado de lado. O foco de sua vida agora era o meio ambiente. Ele, justo ele que até há muito pouco tempo atrás chamava ecologistas de “ecochatos”, agora era um homem preocupado com a preservação do meio ambiente como um todo. Teimava em acreditar nisto, mesmo sabendo que era apenas mais um de seus ardis para chegar ao poder. Sua ambição não conhecia limites. Thiago não conhecia limites. Freqüentemente costumava dizer que limites eram paradigmas dos fracassados. Só os ousados, os não limitados é que venciam.


    Depois de longos 28 dias – isto para ele era uma eternidade, e este era um ponto que menos entendia nas mulheres – ele estava com o Plano de Governo na sua área pronto. Terminou de escrever quando o relógio marcava 42 minutos do domingo. Isto merecia uma comemoração. Sem pensar muito, Thiago tomou um banho, perfumou-se, vestiu-se e saiu.


    Não queria ir para os lugares que costumava freqüentar. Queria ver gente diferente. Aliás, precisava exercitar esta veia política que estava brotando nele. Mais que isso, queria testar como ficaria sua popularidade caso seus projetos dessem certos. Neste ponto Thiago – com toda sua arrogância, prepotência e egocentrismo – em nada diferenciava dos homens normais. Queria estar mais do que seguro que seu passo era o correto, que este era o caminho que ele deveria seguir.


    O grande problema era que ele não estava habituado a freqüentar outros lugares onde não era conhecido. Mais que isto. Em alguns lugares que freqüentava costumava dizer que era ele que trazia fregueses para o ambiente. Sua soberba era sua marca registrada. E muito de seus amigos faziam de tudo para que cada vez mais ele se tornasse o homem que era. Poucos davam conta – a começar por ele mesmo – que já era uma pessoa bem sucedida aos quase 27 anos de idade e , no entanto, era um homem só.


    Vagou, vagou, vagou. Em nenhum lugar se sentiu á vontade. Em uns porque achava reles demais para que ele pudesse estar. Em outros, porque seus trajes – extremamente refinados – em nada condiziam com aqueles ambientes. E, por fim, nos demais porque especificamente naquela noite não queria estar. E por estas forças que movem a vida e o destino, ele foi parar na loja de conveniência do posto onde havia visto 51.


    Ao chegar no posto, a primeira coisa que percebeu era que o mendigo não estava lá. Thiago respirou aliviado. Aquele pobre homem não passara de uma miragem de uma manhã de domingo, resultado de uma noitada de sábado regada a um bom uísque, sexo e companhias mais que agradáveis. Porém, a mente esta traiçoeira da alma, fez com ele – ao descer do carro – perguntasse do infeliz para o mesmo frentista que lhe atendera naquele dia.


    - Ih, Doutor... parece que internaram ele de novo.

   
    - De novo? Perguntou ele interessado.
  

    - É, sim senhor. Vira e mexe levam ele prá clínica. Fica lá dois, três meses. Depois volta pra rua. Não adianta doutor. Homem falido trabalha e recupera um pouco o que tinha. Homem sem amor não vale é nada.


    Thiago riu do frentista. Concordou para não ofendê-lo. Afinal estava testando sua popularidade e como seria conviver com pessoas comuns, em ambientes comuns, sendo uma autoridade municipal. Não demorou muito e entrou na conveniência do posto. Também queria ver rostos bonitos. Logo deu de cara com duas meninas conversando. Interessou-se por uma delas e sentou na mesa ao lado.


    Percebeu que falavam e que de certa forma apontavam pra ele. A outra por quem não tinha se interessado tanto ria muito. Ria alto. Isto o incomodava muito. Mas sempre lembrava que tinha que ser polido, educado, cortês. Tinha em mente a obsessão que agora seria um homem público. E tinha que suportar todo o tipo de pessoas.


    Mas as duas falavam e repetiam a expressão Mo. E isto começou a fazer com que ele se irritasse. Não conhecia ninguém com este nome ou apelido. Estava claro que falavam dele, pois com freqüência falavam este nome olhando para ele. Subitamente ocorreu-lhe que poderia estar ficando paranóico. E tentou desviar a atenção das duas. Mas era em vão. A mais nova, loira de olhos verdes havia chamado muito a sua atenção. Não demorou muito e uma foi ao banheiro. A loira chegou próximo dele e com um belo sorriso foi logo perguntando:


    - Você é o irmão da Mônica, né?


    Um ar de decepção ficou estampado no rosto de Thiago. Ele estava interessado naquela jovem. Mas o fato de ela conhecer Mônica punha tudo a perder. Por menos que gostasse da irmã, não demonstrava isto. Não queria que os outros soubessem disto. Ele sentia verdadeiro asco por ela, mas não queria que ninguém soubesse. Não sabia – ou ao menos não tinha certeza – que o sentimento que tinha pela irmã era totalmente recíproco. Ainda assim, lembrou que tinha planos para a vida pública e ser cortês era altamente necessário.


    - Sou sim por que?

    - É que eu e minha namorada somos amigas dela.


    A declaração da loira cortou seu coração. Feriu seu orgulho de macho. Estava mais que frustrado. Então aquela mulher que havia mexido com ele era lésbica? E amiga da sua irmã? O golpe era muito forte para ele. Pegou um pacote com 12 latas de cerveja e foi embora para casa. Decididamente, aquele não era um bom dia para ficar na rua. E tinha conseguido, á sua maneira, o que queria. Viu que o mundo sabia ser tão cruel – ou mais – do que ele era com os outros. E isto, de certa forma, o aliviou.

       
    Chegou em casa, e foi direto para o quarto. O computador ainda estava ligado. Leu e releu o que havia escrito para o político e acariciou como pretendia acariciar uma mulher. De certa forma fez amor com a tela. Depois de se extasiar com o que tinha escrito e com algumas latas de cerveja na cabeça, adormeceu sonhando com seus novos sonhos de consumo. Poder, status, dinheiro. Nesta ordem. Depois viriam os outros. Se ele tivesse tempo e vontade de lembrar dos outros.

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