quarta-feira, 7 de julho de 2010

ALFA

    A madrugada de sábado chegava ao fim. Os primeiros raios de sol daquele domingo prometiam ser mais um domingo preguiçoso. Naquele carro imponente, Thiago apenas via as pessoas passarem apressadas como se fossem conquistar algo que desejam ardentemente. Ele, só desejava duas coisas naquele momento. Completar o tanque do seu carro e ir para casa dormir tranquilamente.


      Parou no posto. Enquanto abasteciam seu carro, foi tomar alguma coisa. Tinha passado a noite em uma boate e desfrutado de tudo o que o dinheiro pode oferecer. Bons ambientes, boa comida, boa bebida e mulheres bonitas, sempre disponíveis.


    Pensou em tomar um café, um mate ou coisa parecida. Mas num ato de puro reflexo foi ao freezer, pegou mais uma lata de cerveja e abriu. Sentou em uma mesa. Nunca havia dado a menor importância a regras e leis. Se fosse assim não teria chegado onde chegou. Do lado de dentro daquela conveniência, no conforto daquele ambiente teve uma visão perturbadora: um homem, dormindo em cima de algumas espumas e coberto por uma manta rota. Ao seu lado, duas garrafas da cachaça mais ordinária.


    Aquele homem sempre este ali. Segundo comentários mais maldosos, ele já fazia parte do cenário daquela rodovia mais que movimentada. Apenas Thiago nunca tinha dado muita importância a ele. Aliás, havia muita coisa que ele não fazia questão de prestar atenção. Sua vivência política havia dado a ele esta condição: quanto mais frio você for diante das adversidades, menos se abaterá e muito mais fácil as superará. E se estas adversidades não lhe dissessem respeito, as desprezava o mais rápido possível.


    No entanto, naquele domingo aquele resto de homem chamou sua atenção. Pensou o que levava um ser humano descer tanto assim. Como que alguém podia deixar que a vida se transformasse num inferno?


    Dizia acreditar em Deus muito mais por convenção social do que por convicção pessoal. Sabia da hipocrisia reinante nas religiões mas não era capaz de enxergar a hipocrisia que estava vivendo. Adora toda aquela situação. Havia descoberto que todos os homens tem seu preço e ele tinha condições de pagar a maioria deles. Para alguns, era abominável. Para a maioria, um modelo a ser seguido.


   Perguntou ao frentista quem era e porque estava daquele jeito. O frentista respondeu que não o conhecia direito. Dizia que todos os chamavam de 51 – numa referência a uma marca de cachaça – e que até onde sabia ele havia chegado naquela situação por causa de uma frustração amorosa.


    - Como é que é, me conte isto? Perguntou com um interesse não muito comum para uma pessoa que passou a madrugada em festas.


    Pacientemente o frentista contou o que sabia. Que ele era um mecânico de mão cheia e que ao saber que a mulher o havia traído começou a beber e a prevaricar no seu serviço. Acabou sendo despedido. Continuou a beber e deixou toda e qualquer possibilidade de emprego de lado. O que era para ser de lado, acabou completamente descartado. E para manter seu vício – única razão da sua vida naquele momento – começou a mendigar. E desde então aquela era sua vida.


    Achou ridícula a história. Como alguém poderia acabar naquele estado por causa de uma frustração amorosa? Só podia ser mais um mito que havia se criado em torno de uma figura popular naquela região da cidade. O que Thiago não pensou era no fato de ele sempre abastecer naquele posto – julgava o combustível mais puro da cidade – e nunca ter percebido que aquele homem existia.


    Antes de retomar o  caminho de sua casa, arrumou uma justificativa mais que perfeita para não ter percebido aquele homem:


    - Se não tivesse com a camisa do Flamengo com certeza eu não teria notado aquela figura. Disse para seus botões, como se quisesse dar satisfação a si mesmo da invisibilidade que aquele verdadeiro pária social provocava na maioria das pessoas como ele.


    E como tivesse perdoado a si mesmo pelo fato de ignorar um ser humano de maneira que não se ignora sequer um cachorro sarnento, deu uma nota de dois reais ao frentista, sorriu – como se tivesse dado uma nota de cem – e seguiu para sua casa. Afinal o descanso era mais que merecido depois de tudo o que ele tinha passado naquela noite.

BETA

Entrou no prédio onde morava com a arrogância que lhe era peculiar. Raras vezes cumprimentava, e mais raras ainda falava com porteiros e serviçais do condomínio onde morava. Além do mais estava relativamente “etilizado” para falar com alguém. E sem o mínimo de paciência também.


    Ao chegar ao apartamento, olhou ao seu redor. Ali de certa forma era o mundo onde ele não usava as máscaras. Principalmente as sociais, da qual se tornara um mestre em usá-las e manuseá-las ao seu bel prazer. Morava num apartamento de 180 metros quadrados, com a mãe, dois irmãos adotivos e um irmão consangüíneo. O pai ele pusera pra fora da antiga casa quando começou a ter “status”.


    Thiago era incrivelmente surpreendente. Da mesma forma que agia com o coração com algumas pessoas, era frio, mesquinho, egoísta em relação á maioria delas. Sua história era uma prova cabal disto. Estava com 26 para 27 anos e havia saído de um relacionamento onde tinha dado o melhor de si, mas sofrera a ingratidão da amada.

   
    Ele não perdoava Talita por nada. Sua história tinha sido um misto de amor e ódio que duraram cinco anos. No fundo, ainda sofria com sua ausência, mas tinha optado em esquecê-la se afundado no trabalho. Até aí isto não seria inconveniente algum se não passasse a sentir desprezo pelo ser humano – a começar dele mesmo, sem se dar conta disto – como um todo. Era a soberba encarnada, por assim dizer.


    Ao entrar na sua casa, sentiu um doce aroma de café quente vindo da cozinha. Sua mãe estava acordada, fazendo o ritual que ela seguia durante anos. Preparar tudo para os filhos e agregados. A relação de Thiago com sua mãe era outra prova inconteste do seu temperamento estranho. Ora, era o filho atencioso, dedicado. Ora, fazia dela uma verdadeira doméstica. Ou uma sub-escrava, mesmo.


    Naquele dia, estava estranho. A visão do mendigo tinha sido perturbadora. Entrou na cozinha, deu um frio “bom dia” para a mãe, bebeu o café quente, e deixou um recado taxativo:


   - Vou dormir agora e não quero ser incomodado por ninguém. Nem se acontecer um terremoto ou este prédio ameaçar cair, me acordem.


    Nem sequer um mísero beijo deu em sua mãe. Foi para o quarto. Tirou sua roupa, ligou o computador e entrou no chuveiro. Enquanto se banhava ficou pensando mesmo se a história que o frentista tinha lhe contado poderia ser verdade. Alguém pode chegar á mendicância material por uma desilusão amorosa? Queria realmente esquecer aquilo, mas parecia que uma nova obsessão tomava conta da sua mente, da sua alma.


    Mal se enxugou e nu mesmo foi para a cama. Num último relance, percebeu que Talita estava “on line”. Queria muito falar com ela, mas tinha a plena convicção que ela não merecia mais sua atenção. Por mais que se sentisse, ainda, atraído por Talita não seria justamente ele que daria mão á palmatória e cederia. Ela que remoesse por toda sua vida o dissabor que havia passado.


    Ao perceber que ele estava “on” também, Talita tentou chamá-lo para conversar. Ele mudou o status para ausente e deixou um recado claro: “Fui dormir, não me encham o saco. Quando acordar falo com todos”. Era a maneira gentil que ele sabia de demonstrar afeto para com as pessoas. E se elas não gostassem dele assim que fossem procurar o “caminhão de onde haviam caído”. Sabia que estavam ao seu lado por causa da posição social e econômica que alcançara.


    Deitou e olhou para a tela do computador. Por mais que detestasse a idéia, Talita ainda mexia com seus sentimentos. Isto era o que mais doía nele. Ter que admitir o quanto aquela mulher tinha sido especial em sua vida e quanto ele tinha dado de melhor para ela. E ela simplesmente havia feito com ele o que fez. Não, decididamente o melhor era deixar ela esperando até que ele descansasse. Se, ao acordar ela ainda estivesse “on line”, ele conversaria com ela. Afinal, ele era um homem civilizado – pelo menos ele se julgava assim.


    Virou para o outro lado, tentando desviar a atenção da tela do computador e uma pergunta torturava sua cabeça:


    - Por que, afinal de contas, tive que ligar isto?


    Era extremamente difícil para Tiago admitir a idéia de que ele era uma pessoa absolutamente normal. Por mais que seu ego não permitisse, a essência de homem bom ainda tinha lampejos. Apesar de insistentemente admitir que abstraísse facilmente as coisas, aquela mulher que o esperava no MSN havia mexido profundamente com as razões mais simples que movem um ser humano: as emoções. Sim, são as emoções nossas maiores razões.


    Enquanto lutava contra a vontade de levantar e teclar com Talita, a figura do mendigo voltou á sua mente. Definitivamente, 51 havia mexido com ele. Não que ele fosse fazer qualquer coisa para mudar o destino daquele pobre homem. Ele não era dado a esse tipo de atitudes e não seria agora que começaria a fazer este tipo de coisa. Mas a possibilidade daquele homem se contentar com duas ou três garrafas de cachaça, pão, um colchão de espuma e um “corta-febre” por causa de uma desilusão amorosa tinha feito com que ele repensasse – ou pelo menos começasse a repensar – algumas coisas em sua vida. E, ao começar a refletir sobre algumas coisas altamente relevantes que haviam acontecido, foi vencido pelo sono e adormeceu profundamente.


    Não dormiu nada bem naquela manhã. Primeiro porque não conseguia tirar a imagem do mendigo da sua cabeça. Segundo que o barulho do domingo na sua casa estava mais infernal do que os dias anteriores. Acordou possesso consigo mesmo. Por que não tinha dado dinheiro para que todos naquela casa fossem comer fora e ele pudesse descansar como merecia?


    Mal levantou e percebeu que Talita permanecia “on line”. Ela parecia desesperada para falar com ele. Percebeu que ela mexia, e muito, com ele ainda. Por mais que tentasse evitar o óbvio, ainda a amava. Jamais admitiria isso a ninguém. Até admitir para si mesmo era dolorido, imagine assumir isto aos outros.


    Com cara de menos amigos do que o normal foi até a cozinha – apenas de cueca – tomou mais um café, um suco, comeu algo e foi encarar sua realidade. Saber, de uma vez por todas, o que afinal de contas aquela mulher poderia querer tanto com ele. Sentou na frente do computador, respirou fundo e disse para si mesmo:


    - Seja o que Deus quiser...

GAMA

Sua história com Talita, por si só, daria um romance. Conheceu Talita na Universidade. Eles faziam Psicologia. Coincidência maior. Ambos tinham nascido no mesmo dia. Tinham exatamente um ano de diferença. E no auge das suas vidas – fim da adolescência, início de juventude – acreditando que o mundo universitário fosse sinônimo de maturidade emocional, estabeleceram um romance entre eles.


    E a expressão estabelecer romance é a mais adequada. Não era uma relação afetiva. Era uma relação de dependência, de chantagem emocional. Talita sempre tinha sido – e ainda era – uma menina linda, fruto da cobiça da maioria dos meninos da escola e da rua onde morava. Loira, olhos azuis, quase metro e oitenta, sorriso contagiante. Uma beleza “holywodiana”.

   
    Thiago nunca tinha sido o que se pode chamar de padrão de beleza. Mas seu carisma e simpatia conquistava a todos. Podia parecer contraditório, mas ele já havia sido uma pessoa querida. Hoje, ao contrário, era muito mais temida – e principalmente odiada – pela maioria das pessoas com quem tinha algum tipo de contato.


    Por conta dessa simpatia de outros tempos, ele acabou conquistando o coração de Talita. Mais que isto. Ela acabou conquistando o coração dele. No entanto, depois de algum tempo a relação começou a ficar desgastada. Discutiam com freqüência e os motivos eram os mais banais possíveis. Extremamente possessivo, Thiago queria que Talita o acompanhasse nos lugares onde ele queria estar. Ou então que ficasse em casa. Isto fazia com que ela agisse com rebeldia. Fingia concordar, mas ao virar a esquina ela ligava para suas melhores amigas e ia para onde queria. Principalmente se ela tivesse sido magoada pela grosseria dele. Aí que ela fazia isto com maior prazer ainda. E não fazia questão de esconder dele absoltamente nada disto.


    Cada vez que Thiago descobria que Talita havia “descumprido” suas ordens ele ficava possesso. Mas como ele a amava incondicionalmente acabava tolerando isto. Afinal os dois estavam desabrochando para a vida. Nada mais natural que ambos quisessem descobrir o mundo. Só cometeram o pecado – e o amor não perdoa este tipo de pecado – de cada um querer descobrir o mundo sozinho e não juntos. Isto – na maioria das vezes – é um passo para o fracasso amoroso.


    Para completar a desarmonia que o casal estava vivendo, Thiago desiludiu-se com o curso de Psicologia. Na realidade ele não tinha a menor vocação para ser psicólogo. Era colérico e intempestivo na maioria das vezes. E quando parecia ser racional, no fundo, estava arquitetando algo maquiavélico – no sentido mais pejorativo que esta palavra traz em seu bojo -. O problema seria falar para Talita o que sentia e qual era esta decisão. Nesta ocasião, ele havia feito uma descoberta relevante. Alguns sentimentos adolescentes – como o medo incontido de perder quem amamos – nos persegue durante toda a vida, por mais bem sucedidos que possamos ser ou estar.


    Ainda assim, disse a ela que no final do ano faria um novo vestibular. Talvez até integral como psicologia, para que eles continuassem unidos. Mas que ele não tinha nascido para aquela profissão. E num dos poucos momentos em que a ética se fez presente em sua vida argumentou de modo incisivo:


    - Não acho justo ocupar o lugar de alguém que tenha talento e vocação para a psicologia.


    Este argumento convenceu plenamente Talita. Ele sabia ser persuasivo e para conseguir determinados objetivos até era – ou parecia ser ético – e desta forma a carreira de psicólogo de Thiago tinha chegado ao fim. O que não deu conta é que esta tomada de decisão também iria refletir – e muito – na sua relação pessoal e afetiva. Mas a sua realização sempre esteve e estava acima de tudo e de todos.


    Neste dia, a vida dele deu a guinada para pior que todos achavam impossível que acontecesse. No final daquele ano foi aprovado no vestibular de licenciatura em Química. Nunca tinha pensado em ser professor. Mas tinha a impressão que o magistério tinha um certo poder e isto o interessava muito. Mais a mais, caso também não fosse isto que ele quisesse faria outro curso ou faria bacharelado. Uma coisa estava decidida: nunca mais iria lidar com psicologia na vida.


    O fato de o curso de Talita ser integral e o de Thiago ser noturno provocou um distanciamento entre os dois. Só se falavam por telefones, SMS, MSN e outras formas de tecnologia. Porém o contato corpo a corpo, olho a olho, contato físico, o contato que realmente aquece a relação amorosa e a torna mais intensa e mais plena estava comprometida. E isto a incomodava. Nesta época, a ambição dele – que nunca tinha sido pouca, muito menos comedida – passou a aflorar na sua mente com mais intensidade.


    Começou a trabalhar. Não se fazia de rogado. Podia ter todos os defeitos do mundo, mas era um obstinado pelo trabalho. Além disto, via no trabalho uma forma de ascender na vida. E para quem pretende uma ascensão rápida, a ética não pode ser uma companheira inseparável. Esta foi a equação que ele passou a incorporar na sua vida a partir dali.


    Evidentemente que sua relação pessoal com Talita também entrou em linha de colisão. Se quando os dois estavam unidos ele fazia de tudo para impor sua vontade a ela, não seria agora que ganhava seu próprio dinheiro que as coisas seriam diferentes. Com uma diferença. Agora ela “dependeria” dele. O poder do dinheiro começa a falar mais alto na sua mente. Era o início de uma metamorfose que seria irreversível. Ou será que um mendigo em estado pra lá de terminal poderia provocar esta mudança nele? A vida sempre nos oferece perguntas e quase nunca, respostas.


    Com esta mentalidade, a relação entre os dois ficou ainda mais instável. Ele ganhava pouco, é verdade, mas o pouco que ganhava fazia com que se sentisse poderoso, a ponto de controlar ainda mais Talita. Se no começo ela achava um certo charme esta possessão que ele tinha, agora estava mais que inconveniente, estava insuportável manter a relação.

   
    E como era de se esperar logo houve um grande atrito entre eles. Ela queria ir num grande evento que teria em sua cidade. Além do mais haveria um show da banda Capital Inicial, de quem ela era fã incondicional. Ele simplesmente os achava insuportáveis. A briga foi imensa. Houve a primeira ruptura entre os dois.


    Durante o evento ela conheceu um rapaz. Achou o bonito. Conversaram, beijaram, fizeram amor. E nunca mais um viu o outro. Semanas depois o quase esperado. Talita estava grávida. Do pai da criança ela mal sabia o nome. Pensou em abortar. Desistiu. Sempre foi meio fatalista. Sabia que podia ter evitado aquele filho naquela noite. Por que excluí-lo agora? E munida de uma coragem espantosa teve o filho.


    Mais espantosa ainda foi a reação de Thiago ao nascer a criança. Procurou por ela e a perdoou. Fez mais. Registrou o menino como seu filho. Uma nova lua de mel iniciou na vida daquele casal...


    Ao lembrar do fato mais importante que havia acontecido entre ele e Talita, lágrimas escorreram pelo seu rosto. Fazia tempo que não chorava e – principalmente naquele dia – ele precisava disto. Aos poucos, porém, voltou a ser o homem em que havia se transformado e como Talita demorava para responder a ele no MSN, levantou-se dando um burro na mesa e desabafou:


    - Agora é você quem vai esperar o tempo que eu quiser, sua filha da puta...

DELTA

Saindo daquele monitor estava voltando para o mundo real. Costumava dizer que aquela era a única ficção que ele apreciava. E isto com uma dose elevada de sarcasmo. Pois tratava como ficção pessoas reais. Virtuais, é verdade. Mas que do outro lado do monitor tinham sentimento, coração. Por isto achava tão imbecis as pessoas que caíam em golpes amorosos via internet. Tão imbecis quanto quem caía no golpe do bilhete em plena era da tecnologia de informações.


    O que Thiago demorava a crer – mesmo sendo um fato recorrente em sua vida – era de que sua realidade era muito pior que qualquer depoimento que tivesse lido em qualquer site de relacionamento por onde circulava nos seus domingos. A vida era recheada de boas novidades. Mas sua vida era atribulada demais. E ele conseguia fazê-la ainda mais atribulada do já era normalmente.


    Ao sair do seu mundo particular – seu quarto era literalmente isto e só ele habitava aquele mundo – deu de cara com uma das piores realidades com quem “era obrigado” a conviver: Mônica, sua irmã adotiva. Aquela jovem conseguia irritá-lo com o simples olhar. Naquela manhã, já irritado com o flash-back que tinha tido ao lembrar do início de seu relacionamento com Talita, ela conseguiu ir ao máximo do sarcasmo com ele, ao cinicamente dizer:


    - Bom dia maninho...


    - Antes que eu me esqueça, Mônica, vá tomar no cu com força...


    Os dois se odiavam e – á medida do possível – se suportavam. Ela não queria mais saber de Talita na vida dele. Ele queria que ela desaparecesse como num passe de mágica. Se não fosse a presença da mãe, muito provavelmente os dois já tinham ido ás vias de fato ou pior talvez já tivessem se matado. O que a irmã adotiva não percebia era que – especialmente naquele dia – Thiago estava muito mais alterado que nos dias anteriores.


    A imagem do bêbado e a história que o frentista havia contado a respeito de 51 tinha mexido com ele muito mais do que ele imaginava. Tentando esquecer daquilo foi até a cozinha ver se tinha algo para comer. Eram duas da tarde. Sua mãe, caprichosamente, deixava a comida pronta em um prato. Era apenas esquentar no micro-ondas. E assim mais uma vez almoçou sozinho.


    Neste meio tempo, Mônica sorrateiramente entrou no quarto dele. Viu que o computador estava ligado e que Talita, desesperadamente, tentava falar com ela. Sem pensar muito e com uma agilidade poucas vezes vista ela sentou, abriu a janela e digitou:


    - Faz um favor pra mim. Me erra, me esquece e nunca mais me procure.


    Sem fazer a menor cerimônia saiu do quarto. Ele ainda almoçava. Ela riu baixinho e mais uma vez provocou:


    - To saindo alguém quer que eu traga alguma coisa na hora que eu voltar?


    Thiago retrucou:


    - E desde quando bebum é capaz de lembrar de alguma coisa com a cara totalmente chapada?


    E sem dar muita atenção ao irmão, Mônica saiu. Na realidade ela queria estar bem longe da casa quando ele visse o “serviço” que tinha feito no computador dele. Sabia que ele ficaria possesso. Sabia que até risco de ser agredida fisicamente ela estava correndo. Mas ela não resistia á tentação de provocá-lo. E além de tudo ela cada vez gostava menos dele e a cada dia crescia dentro dela uma vontade enorme de prejudicá-lo. Assim como ele fazia com as outras pessoas.


    Thiago voltou calmamente para o quarto. Na realidade queria ver a reação de Talita. Ela, assim como ele, detestava a idéia de ser deixada de lado. Mas ainda assim ela tentava fazer isto com ele. Dessa forma a possibilidade de os dois reatarem ficava cada vez mais remota.


    Ao entrar no quarto, percebeu que alguma coisa estranha tinha ocorrido. Ele era detalhista e conhecia cada pequeno detalhe daquele verdadeiro “reino” que tinha criado para ele. Notou que a cadeira em frente ao computador não estava na posição que ele deixara. A primeira coisa que pensou foi na irmã. Logo, descartou a idéia. Ela não seria tão insana a este ponto. Ela sabia – como todos naquela casa – que a entrada naquele quarto era restrita a sua mãe. Nem Geralda, a doméstica, podia entrar lá sozinha.


    Achando que estava delirando já com o episódio do mendigo, sentou na frente da tela e começou a teclar com alguns amigos. Mas queria mesmo era falar com Talita. Ela permanecia calada. Não dava sinais que queria falar com ele. Sem se dar conta do que Mônica havia feito, pois a pensar na história que ele tinha construído com a agora quase ex-amante.


    Lembrou que fazia meses que não ia ver Leonardo, filho de Talita  e que ele havia assumido a paternidade. O menino era muito apegado a ele e o chamava de pai com freqüência. Uma ponta de remorso bateu no seu coração. Por mais que tivesse trabalhando poderia arrumar um tempo para ver o menino. E ele sabia que o sentimento daquela criança para com ele era verdadeiro. Esta era uma das poucas relações verdadeiras que Tiago ainda tinha. E num lampejo de “bom mocismo”, ele levantou-se daquela cadeira, trocou-se e foi em direção ao menino. Mal sabia o que estava para acontecer a ele ainda.


    Ao chegar á casa dela viu a criança brincando. Ao vê-lo o menino veio ao seu encontro numa demonstração explícita de felicidade. O que ele não havia entendido era que podemos ser felizes quando amamos apenas trocando olhares. Nas situações menos triviais é que podemos sentir o amor. Para que nas situações corriqueiras nos alimentemos dele.


    O calor do corpo infantil de Leonardo foi um bálsamo para ele. Precisava sentir que ainda era amado. A vida havia endurecido o coração de Tiago. Não que tivesse sido tão cruel assim. Mas ele havia feito a opção por ter e não por ser. E, efetivamente, havia conseguido. Tinha poder, tinha dinheiro, tinha status. Mas não era feliz.


    E aquele abraço fez certa diferença para ele. Talvez até marcasse uma virada em sua vida se não fosse a atitude – mais que previsível – de Talita. Ao tentar falar com ela, simplesmente viu a porta do apartamento bater em sua cara. Ficou pasmo com a atitude. Sabia que ela era de tomar decisões precipitadas. Mais que isto, na hora da raiva fazia besteiras inomináveis. Ao lado dele, pegando em sua mão, estava a maior de todas as atitudes impensadas dela. Mas era aquela atitude que o fascinava nela.


    Porém, percebeu que desta vez a coisa realmente era mais séria do que de costume. Ao entrar na casa, ela simplesmente deu as costas para ele e foi para o quarto. Se para as pessoas comuns ser ignorado é motivo de revanches cruéis, para alguém com o perfil dele era definitivamente o fim. Logo deixou o menino voltar para o parque onde brincava e, literalmente, avançou contra aquela porta.


    Ameaçando derrubar a porta ele proferia juras de amor. Leonardo havia balançado o coração dele. Tentava mostrar a ela que tinha feito pouco caso dela porque tinha agido – mais uma vez – com frieza e estupidez. Para quem o conhecia ficaria a dúvida. Estava ele sendo sincera com ela ou era este mais um jogo para que ela voltasse para seus braços?


    Antes que a dúvida pudesse ser dissipada, Talita abriu a porta e disparou:


    - Por que você não pensa, ao menos uma vez, nos outros? De onde vem este mórbido prazer de pisar, de magoar as pessoas?


    E trancou a porta novamente. A sentença contra Thiago estava lançada. Era tudo que ele não precisava naquela tarde de domingo. Depois da cena que tanto o perturbara, agora tinha uma pergunta que ele sequer tinha a menor pista para chegar á resposta. Mas tinha que ter uma explicação para tanta agressividade. Não que ele fosse um paradigma da bondade, do carinho, do afeto. Mas sempre tinha de ter um porquê para todas as perguntas. E as respostas deveriam ter a mesma velocidade das perguntas.


    Não demorou muito e deixou Leonardo. O passeio tinha – mais uma vez – ficado para outro dia. Agora ele estava mais do que focado em tentar descobrir as respostas para as perguntas agressivas da mãe de seu filho. Chegou na sua casa e sem falar com ninguém deitou na sua cama.


    Trancado no seu quarto procurava as respostas. O que ele havia feito á Talita para ela o tratar com tanta violência? Onde ele havia errado – desta vez – com ela? Aí é que tudo piorava em sua cabeça. Em busca das respostas, mais perguntas surgiam. E isto o irritava profundamente.


    Subitamente, um último reflexo tomou conta de Thiago. Olhou para o computador e percebeu que ele ainda estava ligado. Percebeu que havia esquecido ele ligado e conectado no MSN. Pensou que ali poderia ter alguma explicação para aquela ira toda que Talita havia despejado contra ele horas antes. Mas descartou a possibilidade. Foi até a cozinha. Pegou uma lata de cerveja. Voltou para o quarto. O computador parecia desafiá-lo. Num último reflexo, sentou e foi buscar a resposta para o que mais o afligia. Ás vezes as respostas para nossas perguntas tornam-se nossas algozes.


    Não demorou muito e viu o que Mônica tinha feito. Ela tinha sido tão sarcástica com ele que sequer fechara a janela do MSN. A cólera tomou conta de todo o seu ser. Imediatamente ligou para o celular da irmã. Obviamente, estava desligado. Transtornou-se. Saiu atrás dela, disposto a tudo. Até tirar a vida dela se fosse o caso. Passou em todos os lugares possíveis e imagináveis. Em nenhum lugar teve notícias.


    A primeira coisa que Thiago pensou foi que estivessem escondendo alguma coisa dele. Depois, do fundo do coração, desejou que ela tivesse sido vítima de “seqüestro relâmpago” ou algo assim. Desde que ela desaparecesse da sua vida isto seria um alento para ele. Como não tinha notícias da irmã, passou em um bar, comprou uma garrafa de vodka e foi para casa.


    Entrou no seu quarto e tentou inúmeras vezes ligar para Talita. A cada ligação, um gole. E a cada tentativa, uma frustração. Decididamente ela não queria falar e muito menos vê-lo. Por instantes pensou na semana que iniciaria na segunda feira, nas 72 aulas que tinha pela frente, nas reuniões e no seu futuro político. Mas o que ele queria era ser completamente bem sucedido em todas as áreas da vida. Como se isto fosse possível...

  
    Lentamente foi perdendo as forças. Mônica não chegava. O álcool fazia efeito. As obrigações semanais cobravam o repouso. E antes que desse conta, adormeceu profundamente.

ÉPSILON

Seis da manhã. Acordou cinco minutos antes que o celular despertasse. Seu senso de responsabilidade era maior que seu caráter duvidoso ou que sua ira incontida. A verdade é que ele era um homem ainda novo, com seus 27 anos e uma vontade, uma obsessão pelo poder e pelo status inegável. Isto o fazia suportar a carga de trabalho que tinha.


    Estava agora entrando para o mundo da política. Mas não de forma direta. Jamais teria paciência – e muito menos tempo – para os compromissos e as falácias que fazem o perfil do candidato e de boa parte dos políticos bem sucedidos. Tudo que dissesse respeito á eleição municipal o interessava. Via na política uma forma mais rápida de poder do que através do trabalho.


    Depois de ter deixado o curso de Psicologia, entrou de cabeça no curso de Química e antes de ser contratado por uma multinacional – seu primeiro objetivo – começou a dar aulas. Como tinha mais carisma do que competência, logo começou a ser cortejado pelas escolas de sua cidade.


    Como não se preocupava muito com a questão de companheirismo profissional foi abraçando todas as aulas que lhe foram ofertadas – evidentemente, pelo preço que ele exigia – e foi tirando muitos colegas do mercado. Isto, de certa forma, o excitava. Era a forma mais completa de exercer o seu poder. Não estava nenhum um pouco interessado se prejudicava outro profissional como ele. Usava os colegas para se inteirar de como era o novo ambiente de trabalho e quando todos menos esperavam, justamente os que ele menos gostava eram demitidos. Assim trabalhava – no seu modo de ver – apenas com quem ele queria. E foi desta forma que Thiago chegou a ter 72 aulas por semana.


    Enquanto tomava o café de manhã e engolia as palavras do jornal o telefone tocou. Eram 6:40. Quem poderia ser naquela hora? Não era de chegar atrasados em seus compromissos. Aliás, não suportava atrasos de qualquer natureza. Era um político muito conhecido em sua cidade. Sua fama de corrupto era tão grande quanto sua popularidade. Disse que precisava falar com ele ainda naquele dia.

   
    Seus olhos brilharam diante do convite do político. Sabia perfeitamente da fama que aquele homem gozava. Mas tinha plena noção que exatamente aquele homem poderia ser o canal para sua mais recente ambição: o poder. Não que tivesse poder bastante diante dos seus alunos, colegas, e até com alguns superiores. Mas como costumava dizer para si e para os poucos amigos chegados que tinha:

    - Poder nunca é demais...


    Até começou a degustar o café da manhã. As palavras daquele homem – uma verdadeira ave de rapina, segundo o senso comum – haviam mais que adoçado sua manhã. Subitamente o ódio com que despertara em relação á irmã havia desaparecido. Estranhamente ficara com dó de Mônica. E Thiago cansava de dizer que dó era o pior sentimento que se pode ter em relação a outra pessoa.


    Levantou-se, beijou a mãe no rosto – como só fazia quando estava com extremo bom humor – e foi iniciar sua jornada semanal. Duas coisas passavam a tomar conta dos seus pensamentos desde então: a possibilidade de ascender ao poder político e a figura do mendigo. A esta altura a figura do mendigo não estava mais desassociada á história que o frentista lhe contara. Mais que isto. Passava,agora, a reparar que sua cidade estava cheia de mendigos que amanheciam na rua. Uma verdadeira calamidade social. O que ele não conseguia identificar era quais eram mendigos econômicos e quais eram mendigos sentimentais. Mendigos sentimentais? Só um louco para acreditar que alguém pudesse se tornar mendigo por causa de desilusão amorosa.


    Seu dia passou rápido. Muito mais rápido do que de costume. Porém, as coisas não estavam tão boas para Thiago quanto ele imaginava. Talita permanecia irredutível na sua decisão de não falar mais com ele. Leonardo pedia a presença do pai, mas a mãe impusera que ele ficasse afastado dele. Para piorar ainda mais as coisas, Mônica agora se fazia de arrependida e procurava uma reaproximação com ele.

    
    Ninguém entendia que ele precisava se concentrar no que poderia ser agora sua nova vida. E, pela primeira vez , pediu um favor a um colega de trabalho. Para ele isto era o máximo de humilhação a que um ser humano podia chegar. Pedir um favor a outro? Que cada um cuidasse do seu nariz. O mundo era pequeno para seu ego.


    Enfim, poderia se atrasar na reunião com o tal político e pedira a um colega que desse duas aulas no seu lugar. Ele pagaria a ele. Em novas aulas, não em dinheiro, evidentemente. E no final da tarde foi ao encontro do político com quem conversara pela manhã. Chegou e pediram que esperasse. Ele sentiu um frio de raiva subir a sua espinha. Como esperar? Se tinham marcado com ele ás 17:30 deveria ser atendido no horário. E pela primeira vez começou a temer por não poder com seu sagrado compromisso com o magistério. Mas palavra dada é palavra empenhada. Quase sempre.


    Depois de esperar uma hora e dez minutos – o que para ele era uma eternidade – e de ameaçar várias vezes ir embora e deixar tudo de lado, a porta da sala de Dr. Manoel da Luz abriu e seu secretário particular Marcos Flávio sorrindo veio até ele:


    - Meu caro Thiago Porto! Que bom ter você aqui conosco. Entre que Dr. Manoel precisa falar com você e muito. Garanto que você vai gostar do que vai ouvir...

ZETA

Ao entrar na sala acarpetada daquele homem começou a sentir uma sensação que há muito não sentia. Parecia ser aquele o ambiente certo para ele. Tudo ali estava disposto da forma que ele havia sonhado um dia. Aquilo sim que era ter vencido na vida. A quantidade de quadros dispostos sobre a sala denotava quanto aquele homem era um abnegado pela causa pública. O que o povo dizia a respeito dele só poderia ser inveja, coisa de gente incompetente mesmo.


    Dr. Manoel não era o que se podia chamar de homem culto, ou ao menos letrado. Tinha mal acabado o ensino médio. Alguns até diziam que ele havia “comprado o diploma” . Mas seu carisma era inquestionável. Sorrindo aproximou-se de Thiago, deu-lhe um forte e caloroso abraço e foi saudando efusivamente:


    - Meu caro professor Thiago, que prazer receber o senhor aqui!


    - Bondade, sua, Dr. Manoel. Boa bondade, sua.


    E imediatamente foi colocado em uma confortável cadeira estofada em couro italiano. Até cheiro de status aquela sala tinha. Entorpecido nos princípios elementares da razão – algo parecido com pessoas apaixonadas – foi ouvindo o que aquele homem tinha tanto a lhe dizer. E as palavras cada vez mais soavam adocicadas para ele. O político fez a proposta para que elaborasse – com sua equipe – o plano de Governo para a área de meio ambiente. Humildemente ele tentou alegar que era um químico e que seus conhecimentos nesta área não eram tão vastos assim. Na realidade, estava tentando fazer com que se livrasse da equipe. Ou ele seria o responsável sozinho ou não faria nada.


    Não demorou muito a conversação para que a Thiago saísse – aparentemente – vitorioso. Dr. Manoel acabou por confiar a ele, por uma quantia significativa em espécie, o plano de governo na área de Meio Ambiente. Na realidade, o político tinha um “plano B”. Desconfiado que o professor não fosse capaz de fazer um plano que rendesse votos, pediu a outros – sem remuneração nenhuma – que fizessem o mesmo. E a este prometeu a Secretaria, caso vencesse a eleição.


    Thiago, porém, tinha uma intuição brilhante. Desconfiado da boa vontade do político, debruçou-se no plano de governo com o carinho dedicado á Talita nos primeiros dias e meses de namoro. Queria causar uma boa impressão naquele homem, independente do juízo que seus colegas faziam dele. Queria, de fato, com este trabalho conquistar o político e o cargo prometido a várias pessoas. A sua ambição era desmedida.


    Nos dias que se seguiram, ele se tornou um homem recluso. Pouco era visto na noite. Não perdera a dedicação nem o carisma com o ensino e com os alunos, embora agora considerasse a profissão apenas um segundo plano na sua vida. Estava, literalmente, obcecado pela idéia de fazer o plano e entrar para a política de vez.


    Até seu comportamento, aparentemente, havia mudado. Sua relação com Mônica estava normal. Às vezes até a levava para as baladas da vida. Vez ou outra participava de um churrasco ou de um jantar com amigos. Até a banda de jazz que tinha formado com dois amigos um ano antes tinha deixado de lado. O foco de sua vida agora era o meio ambiente. Ele, justo ele que até há muito pouco tempo atrás chamava ecologistas de “ecochatos”, agora era um homem preocupado com a preservação do meio ambiente como um todo. Teimava em acreditar nisto, mesmo sabendo que era apenas mais um de seus ardis para chegar ao poder. Sua ambição não conhecia limites. Thiago não conhecia limites. Freqüentemente costumava dizer que limites eram paradigmas dos fracassados. Só os ousados, os não limitados é que venciam.


    Depois de longos 28 dias – isto para ele era uma eternidade, e este era um ponto que menos entendia nas mulheres – ele estava com o Plano de Governo na sua área pronto. Terminou de escrever quando o relógio marcava 42 minutos do domingo. Isto merecia uma comemoração. Sem pensar muito, Thiago tomou um banho, perfumou-se, vestiu-se e saiu.


    Não queria ir para os lugares que costumava freqüentar. Queria ver gente diferente. Aliás, precisava exercitar esta veia política que estava brotando nele. Mais que isso, queria testar como ficaria sua popularidade caso seus projetos dessem certos. Neste ponto Thiago – com toda sua arrogância, prepotência e egocentrismo – em nada diferenciava dos homens normais. Queria estar mais do que seguro que seu passo era o correto, que este era o caminho que ele deveria seguir.


    O grande problema era que ele não estava habituado a freqüentar outros lugares onde não era conhecido. Mais que isto. Em alguns lugares que freqüentava costumava dizer que era ele que trazia fregueses para o ambiente. Sua soberba era sua marca registrada. E muito de seus amigos faziam de tudo para que cada vez mais ele se tornasse o homem que era. Poucos davam conta – a começar por ele mesmo – que já era uma pessoa bem sucedida aos quase 27 anos de idade e , no entanto, era um homem só.


    Vagou, vagou, vagou. Em nenhum lugar se sentiu á vontade. Em uns porque achava reles demais para que ele pudesse estar. Em outros, porque seus trajes – extremamente refinados – em nada condiziam com aqueles ambientes. E, por fim, nos demais porque especificamente naquela noite não queria estar. E por estas forças que movem a vida e o destino, ele foi parar na loja de conveniência do posto onde havia visto 51.


    Ao chegar no posto, a primeira coisa que percebeu era que o mendigo não estava lá. Thiago respirou aliviado. Aquele pobre homem não passara de uma miragem de uma manhã de domingo, resultado de uma noitada de sábado regada a um bom uísque, sexo e companhias mais que agradáveis. Porém, a mente esta traiçoeira da alma, fez com ele – ao descer do carro – perguntasse do infeliz para o mesmo frentista que lhe atendera naquele dia.


    - Ih, Doutor... parece que internaram ele de novo.

   
    - De novo? Perguntou ele interessado.
  

    - É, sim senhor. Vira e mexe levam ele prá clínica. Fica lá dois, três meses. Depois volta pra rua. Não adianta doutor. Homem falido trabalha e recupera um pouco o que tinha. Homem sem amor não vale é nada.


    Thiago riu do frentista. Concordou para não ofendê-lo. Afinal estava testando sua popularidade e como seria conviver com pessoas comuns, em ambientes comuns, sendo uma autoridade municipal. Não demorou muito e entrou na conveniência do posto. Também queria ver rostos bonitos. Logo deu de cara com duas meninas conversando. Interessou-se por uma delas e sentou na mesa ao lado.


    Percebeu que falavam e que de certa forma apontavam pra ele. A outra por quem não tinha se interessado tanto ria muito. Ria alto. Isto o incomodava muito. Mas sempre lembrava que tinha que ser polido, educado, cortês. Tinha em mente a obsessão que agora seria um homem público. E tinha que suportar todo o tipo de pessoas.


    Mas as duas falavam e repetiam a expressão Mo. E isto começou a fazer com que ele se irritasse. Não conhecia ninguém com este nome ou apelido. Estava claro que falavam dele, pois com freqüência falavam este nome olhando para ele. Subitamente ocorreu-lhe que poderia estar ficando paranóico. E tentou desviar a atenção das duas. Mas era em vão. A mais nova, loira de olhos verdes havia chamado muito a sua atenção. Não demorou muito e uma foi ao banheiro. A loira chegou próximo dele e com um belo sorriso foi logo perguntando:


    - Você é o irmão da Mônica, né?


    Um ar de decepção ficou estampado no rosto de Thiago. Ele estava interessado naquela jovem. Mas o fato de ela conhecer Mônica punha tudo a perder. Por menos que gostasse da irmã, não demonstrava isto. Não queria que os outros soubessem disto. Ele sentia verdadeiro asco por ela, mas não queria que ninguém soubesse. Não sabia – ou ao menos não tinha certeza – que o sentimento que tinha pela irmã era totalmente recíproco. Ainda assim, lembrou que tinha planos para a vida pública e ser cortês era altamente necessário.


    - Sou sim por que?

    - É que eu e minha namorada somos amigas dela.


    A declaração da loira cortou seu coração. Feriu seu orgulho de macho. Estava mais que frustrado. Então aquela mulher que havia mexido com ele era lésbica? E amiga da sua irmã? O golpe era muito forte para ele. Pegou um pacote com 12 latas de cerveja e foi embora para casa. Decididamente, aquele não era um bom dia para ficar na rua. E tinha conseguido, á sua maneira, o que queria. Viu que o mundo sabia ser tão cruel – ou mais – do que ele era com os outros. E isto, de certa forma, o aliviou.

       
    Chegou em casa, e foi direto para o quarto. O computador ainda estava ligado. Leu e releu o que havia escrito para o político e acariciou como pretendia acariciar uma mulher. De certa forma fez amor com a tela. Depois de se extasiar com o que tinha escrito e com algumas latas de cerveja na cabeça, adormeceu sonhando com seus novos sonhos de consumo. Poder, status, dinheiro. Nesta ordem. Depois viriam os outros. Se ele tivesse tempo e vontade de lembrar dos outros.

ETA

Aquela quarta feira prometia ser diferente das demais. Naquele amplo apartamento, estranhamente todos amanheceram felizes. Thiago estava totalmente concentrado no encontro que teria no final do dia com Dr. Manoel. Ele sabia que aquele encontro poderia ser completamente decisivo para toda a sua vida. Gabriel, ia para a entrevista do seu primeiro emprego. A mãe estava feliz porque raramente aquela cena era comum. Nem mesmo em datas como Natal e Ano Novo era difícil ver a casa harmônica daquela forma. Ela rogou a Deus para que os dias fosse mais assim em sua vida.


    Para se ter uma pequena noção de como o dia amanhecera diferente, Thiago ofereceu uma carona ao irmão. Estava orgulhoso dele, logo cedo ir procurar um emprego. No fundo sentia-se levemente aliviado. Seria menos um fardo a sair de suas costas. E teria mais tempo para cuidar dele mesmo. Ainda mais com a vida que se anunciava agora pra ele.


     Para completar a manhã de paz, Mônica também acordou feliz. Mas pendurada no celular. Falava muito com uma amiga: Andressa. E parecia cada vez mais interessada em falar com ela. Sua mãe estranhou tanta felicidade e tanto interesse em encontrar alguém. Será que Andressa seria uma possível nova chefe para ela? Seria bom, porque ela já estava cansada do tipo de vida que a filha levava.


     Totalmente alheia a tudo, Mônica estava cada vez mais interessada em falar com Andressa. Sabia que a amiga serviria perfeitamente para seu plano mais sórdido, mais brilhante, mais genial. E a amiga era perfeita em todos os sentidos para ajudá-la a desenvolver seu plano de ódio, rancor. Uma movida pela inveja, pela sensação de poder tripudiar Thiago. Outra uma pessoa ambiciosa, com altas tendências arrivistas. Era uma união mais que perfeita.


    Naquele dia, após passarem a noite no MSN e trocando mensagens por celular se encontraram. Mônica começou, naquele encontro, por seu plano em ação. Andressa, falsamente insegura foi logo perguntando: 


    - Mas Mônica, será que ele vai se interessar por mim?


   - Claro que vai. Ele amava de paixão aquela idiota da Talita. Nunca entendi direito aquela relação. Mas não suportava aquela mulher. Agora você não. Você é especial, legal. Tenho certeza que em menos de um mês ele ta apaixonado por você.

     
    - Não sei. Só falo com ele por MSN e nem sei se ele se liga tanto em mim assim.


    - Faça sua parte que da minha eu cuido. Logo apresento um para o outro.



    Andressa deu um sorriso de felicidade e insegurança. Ainda iria completar quinze anos mas já tinha uma dose de ambição que em muito era semelhante á de Thiago. E como a oportunidade aparecera sem que ela consumisse muito tempo e muita energia, não abriria mão disso por nada. Quem sabe ela descobria o amor com Thiago. E se não fosse amor, que fosse pelo dinheiro e posição que ele sustentava. O mundo começava a conspirar contra ele...