quarta-feira, 7 de julho de 2010

OMICRON

Mal vibrou com o anúncio da data em que realizaria seu sonho maior com Andressa e percebeu que tinha uma nova mensagem na sua Caixa de Entrada do seu E-Mail. Uma estranha sensação tomou conta de Thiago. E ele não gostou nada daquele sentimento porque toda a vez que ele sentia, sabia que acabaria perdendo alguma coisa. Numa das poucas vezes em que se sentia inseguro e pelo fato de estar sozinho no seu quarto, respirou fundo e abriu a mensagem.

    Como ele temia era do Comitê do Candidato a Prefeito da Cidade marcando uma reunião para aquela sexta feira. Sua primeira reação era de abandonar seus planos publicamente e cair de cabeça na relação que mantinha com a adolescente. Precisava ter certeza que ele era o senhor total daquela situação. No entanto, só havia deixado seus objetivos por vontade própria apenas uma vez: quando desistira do curso de Psicologia.

    Nas demais ou tinha sido forçado a deixar ou havia perdido o interesse naquela pessoa ou objetivo. Era assim mesmo e isto o deixava muito orgulhoso dele. Sabia como poucos, manipular as coisas e as pessoas. Trazia tudo e todos sob seu controle e seu interesse o tempo que ele quisesse. E agora estava obstinado em experimentar o gosto e a sensação do poder. Mais a mais, para quem não o conhecia pessoalmente, era uma pessoa boa, de bom coração, de boa índole. E ele era um crápula. Usava as pessoas de acordo com os caprichos de seus desejos.

    Acreditando que o controle sob Andressa estava mais que tomado ligou para o assessor e confirmou sua presença na reunião. Pensou em ligar para a adolescente, mas resolveu esperar pelo dia seguinte para avisar que os planos teriam que ser adiados porque a reunião era mais do que importante para ele. E ele não gostava de ficar ligando para ela. Quem liga muito é fraco. E isto ele não era. E a situação entre Thiago e ela era mais que favorável ao professor. Ela poderia esperar por mais algumas horas para saber que os planos teriam que ser adiados.

    Como as eleições se aproximavam e com elas o fim do terceiro bimestre, o professor se viu, nos dias que se seguiram atolado de serviço dos dois lados. Como a adolescente não era prioridade na sua vida – quando alguma coisa nos é prioridade, tratamos dela como uma mãe trata de um recém nascido – ele acabou esquecendo-se de avisar á namorada da reunião que teria. Eram dias tensos na campanha. Para ele ainda mais. O baseado tinha se tornado mais seu companheiro do que sua namorada. Cada vez que enrolava um costumava dizer a si mesmo:

    - Depois deste vou dar uma sossegada para que ninguém fique sabendo deste pequeno lance que uso pra relaxar...

    Alheia aos últimos acontecimentos da vida do professor, Andressa fantasiava para si mesma como seria sua primeira vez. Tinha ouvido muitas histórias e lido algumas coisas em sites nada confiáveis sobre a perda do hímen. Um misto de excitação e medo tomavam conta da jovem. Pensou em conversar com a mãe da sua intenção pois confiava nela. Por outro lado, sabia que o temperamento de Dona Regina não era tão confiável assim e ela não voltaria atrás. Sem pestanejar, pegou o telefone e ligou para Anne, sua melhor amiga:

    - Anne vamos se encontrar no colégio. Preciso te contar algumas coisas que decidi...

    A vida política de Dr. Manoel estava cada vez mais difícil. Apesar de ser líder de preferência em todas as pesquisas, estas também indicavam que a eleição iria para um segundo turno. Apesar de o velho político dizer que preferia disputar uma eleição com apenas um adversário, no fundo tinha receio de que certas práticas políticas suas viessem á tona e desmoronassem seus projetos pessoais. Thiago gostava de confrontos diretos. Até porque só enfrentava tais confrontos quando tinha todas as informações e garantias de que sairia vencedor do pleito. Não entendia o porquê de todos naquele grupo temerem um eventual segundo turno. Em suas reflexões – e estas estavam cada vez mais constantes em sua vida – perguntava para si mesmo:

    - Todo mundo sabe que este velho é imbatível. Por que ele teme um segundo turno. Será jogo de cena ou...

    Os pensamentos do jovem professor estavam cada vez mais confusos. Seria possível que aquele homem com cara de Jeca pudesse ser o corrupto que todos diziam ser? Preferiu não pensar naquilo. Sua obsessão pelo poder era muito maior do que este simples detalhe. Ele via naquele homem uma chance real de crescer socialmente e não descartaria aquilo por nada deste mundo. Tudo mais poderia esperar. Mas o cavalo do poder estava passando encilhado por ele e não desperdiçaria esta chance por nada.

    Como era de esperar, seus pensamentos foram se atropelando em sua mente com uma velocidade que Andressa cada vez mais ficava distante. A eleição se aproximava e ele necessitava se concentrar naquilo. Ela que o esperasse. O mundo que o esperasse. Suas vontades eram prioridade sobre a ordem do mundo. E com este espírito foi para o comitê se inteirar da pauta da reunião da sexta feira, e se havia uma previsão para a hora em que a mesma acabaria. Ao estacionar seu carro próximo, viu 51 em frente ao comitê. Parou. Pela primeira vez viu aquele homem sorrindo. Percebeu que não tinha três dentes na arca superior e dois na inferior. Notou ainda mais que a lágrima corria pelo seu rosto. Até sorrindo, aquele farrapo humano era triste. E para completar o quadro estava de novo com a camisa do Flamengo – seu time do coração. Resmungou para si mesmo:

    - Se fosse alguém, eu era capaz de jurar que isto seria perseguição. Mas aquilo ali não vale nem a cachaça que bebe, quanto mais perseguir alguém.

    A verdade é que a figura daquele mendigo e andarilho haviam perturbado sua mente muito mais do que ele podia imaginar. Cada vez que via aquela figura, a história de que ele havia se tornado aquilo por causa de uma desilusão amorosa o deixavam – estranhamente – confuso e irritado. Se tinha uma coisa que jamais perdoaria em alguém seria uma traição. Nem que fosse por uma simples aventura.

    Neste quadro não levava em consideração o episódio de Thalita. Afinal, os dois estavam separados – por horas, mas estavam – quando ela engravidou de Leonardo. E isto não seria traição. Lembrou que não tinha deixado isto claro o suficiente para Andressa, mas o faria. Além do que ele acreditava tê-la completamente em suas mãos. E ainda por cima seus compromissos políticos exigiam muito mais sua presença do que ela.

    Por um instante, tentou apagar aquela figura que estava na sua frente, respirou e entrou no comitê. No fundo, ele queria que – como todas as outras vezes – desta vez demorassem ainda mais para atendê-lo. Mais uma vez o universo conspirou contra ele. Mal entrou, e deu de cara com o velho político que deu-lhe um longo abraço e foi logo exigindo sua presença na reunião da sexta-feira. Sem graça, ele confirmou e quis saber se tinha previsão de que horas terminaria. Para seu desespero ficou sabendo que a velha raposa havia cancelado a agenda daquela noite, porque tudo que fosse conversado na reunião seria prioridade na reta final da campanha.

    Thiago percebeu que seu compromisso com Andressa estava praticamente desfeito. Chegava a hora de ele mostrar sua habilidade política e negociar com ela sua possível ausência. Por pequenos instantes, pensou em abandonar a política e dedicar-se exclusivamente ao novo amor. Mas ele era egocêntrico demais para fazer tal coisa. E ela que também o esperasse. Afinal, ele sempre controlava tudo e com a adolescente não seria diferente.

    Sem que ele percebesse, Dr. Mário se afastou e o deixou sozinho. No entanto, 51 permanecia conversando com alguns colaboradores – assim é que são chamadas as pessoas que recebem para trabalhar nas campanhas políticas – e rindo muito. Como a presença do mendigo o repelia e o atraía ao mesmo tempo, preferiu ficar dentro do escritório do político pensando em que estratégia usaria com sua namorada para explicar-lhe aquele contratempo. Precisava dizer de um jeito que ele não perdesse o controle da situação e ficar refém de uma adolescente e de chantagens absurdas de alguém não sabia nada da vida. O que ele não percebia era que a aparência angelical e inofensiva daquela menina tinha muito mais segredos do que podia imaginar. Desistiu. Não conseguia se concentrar. Resolveu ir embora e passar, mais uma vez, pelo mendigo. Levantou com a pose que lhe era tradicional e ao passar pela rodinha onde estava o andarilho, sentiu o odor horrível de suor que vinha de lá e ouviu em alto e bom som a voz daquele homem:

    - Mas hoje to mais feliz assim. Mulher com cara de santa é pior que político corrupto. Elas riem quanto mais forte te enfiam um punhal pelas costas.

    A frase ecoou na alma de Thiago. Então seria verdade que aquele verdadeiro farrapo humano havia chegado àquela condição principalmente por uma desilusão amorosa? Ele ainda se recusava a acreditar na história do frentista. E sua formação na área de exatas colaboravam para o seu ceticismo. Como um cientista, acreditava que tudo tinha de haver um porquê. E isto não era motivo suficiente para aquele homem descer como desceu. Não percebia que ao entrarmos na Era de Aquarius o emocional sobrepujaria o racional em muitas coisas. Daí a harmonização que é a grande meta desta nova fase da história humana.

    Além do mais tinha dois grandes problemas – estes sim de existência e motivação mais do que real – para se preocupar. Teria que arrumar uma boa desculpa para Andressa e se concentrar totalmente na reunião. Nela, ele poderia dar um xeque-mate e consolidar de vez sua carreira política que estava em estado adiantado de “gestação”.  Chegou à casa tenso. Mônica, como de costume, ameaçou provocá-lo mas percebeu que sua fisionomia era mais tensa do que de costume. Preferiu calar-se. Entrou no seu quarto e ligou para a adolescente. A conversa que começou serena, como era de se prever, foi se tornando tensa a cada instante:

   - Bem que me avisaram que você era uma pessoa egoísta...

   - Não é nada disto. É uma chance de ouro pra mim. E sendo uma chance de ouro pra mim, acaba sendo uma chance real pra nós dois, entende?

    Ela tentava assumir o controle da situação com chantagens baratas. Ele, contava mentiras que qualquer pessoa que travasse o menor contato com ele saberia que se tratava. O foco de entrar na política estava na sua promoção pessoal e na possibilidade de desfrutar de todas as benesses que o poder pode oferecer. E isto significava, necessariamente, ele se dar bem. Se ela quisesse esperar, Thiago teria certeza de duas coisas: que ela o amava e que ele tinha o controle da situação. Conforme a situação foi ficando tensa ele disparou:

    - Quer saber... cansei deste papo... vou trabalhar no que realmente me rende alguma coisa... 

    Jogou o telefone contra a parede e ligou o seu computador. Precisava rever todos os tópicos importantes que seriam tratados naquela reunião. Se aquele encontro seria decisiva para a campanha de Dr. Mário, para ele tinha que ser mais decisivo ainda. Leu com calma, todos os pontos e foi repetindo para si mesmo os argumentos que deviam ser usados naquela ocasião. Seu perfeccionismo beirava as raias da loucura certas vezes. Como sempre quis que apenas suas vontades prevalecessem, muitas vezes sofria calado. Mas jamais dava o braço a torcer. E agiria desta se fosse o caso para conquistar o poder. Não mudaria em nada.

    Depois de muito estudar, resolveu abrir sua caixa de e-mail. Dessa vez sentiu algo diferente. Primeiro porque havia um recado de Leonardo dizendo que estava com saudades dele. Depois porque havia uma mensagem de Soraya desejando boa sorte em sua nova empreitada. Parou para pensar se havia falado alguma coisa com a suposta mãe de seu outro filho. Não lembrou. Não demorou muito e foi dominado pelo sono. As horas avançam quanto os compromissos que temos não são os melhores. O relógio é nosso carrasco quando desfrutamos do prazer de uma boa companhia, apenas isto. Quase dormindo ainda balbuciou para si mesmo:

    - Concentre-se apenas no que é prioridade, Thiago. O resto você tem capacidade de controlar ou pelo menos de assumir o controle das situações.

    O dia amanheceu lindo como sempre. E o professor com o mau humor que o caracterizava quando uma dúvida – por mais ínfima que pudesse ser – aparecia para ele. Além do que havia chegado à sexta-feira decisiva para a campanha e, provavelmente a sexta-feira que ele descartaria a entrega da virgindade de Andressa. Isto o irritava ainda mais. Ele não era dado a perder as oportunidades da vida e poderia, numa única noite, jogar tudo fora.

    Seu dia foi péssimo. Estava completamente tenso com a reunião. Por mais que os políticos o adulassem, ele sabia que não poderia confiar em ninguém ali. Quando a tensão nos domina, o lado psicótico que todos temos parecem aflorar com mais intensidade. E desta forma agiu com os alunos. Mais, o silêncio da adolescente parecia por termo na relação. Para piorar ainda encontrou 51 perambulando pelas ruas:

    - Ei amigo... não dê moleza nela... todos trazem dentro delas o poço da traição...

    Passou ainda assim pelo bar dos seus amigos. Recebeu o convite para que a banda dele e de seus amigos tocassem no final de ano. Riu um sorriso disfarçadamente honesto. Fingiu-se interessado. Neste momento ocorreu seu primeiro arrependimento, e, pela primeira vez ocorreu que tinha dado o passo errado em relação ao poder. Transitava com certa freqüência nos meios culturais. Tinha acesso a várias informações desta área. Se tivesse proposto ao político a assessoria cultural seria muito mais poderoso. Mas não, arriscara num campo que mal conhecia. Descobriria aí que o mundo gira com mais rapidez e violência do que nossa vã filosofia possa imaginar...

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