quarta-feira, 7 de julho de 2010

ALFA

    A madrugada de sábado chegava ao fim. Os primeiros raios de sol daquele domingo prometiam ser mais um domingo preguiçoso. Naquele carro imponente, Thiago apenas via as pessoas passarem apressadas como se fossem conquistar algo que desejam ardentemente. Ele, só desejava duas coisas naquele momento. Completar o tanque do seu carro e ir para casa dormir tranquilamente.


      Parou no posto. Enquanto abasteciam seu carro, foi tomar alguma coisa. Tinha passado a noite em uma boate e desfrutado de tudo o que o dinheiro pode oferecer. Bons ambientes, boa comida, boa bebida e mulheres bonitas, sempre disponíveis.


    Pensou em tomar um café, um mate ou coisa parecida. Mas num ato de puro reflexo foi ao freezer, pegou mais uma lata de cerveja e abriu. Sentou em uma mesa. Nunca havia dado a menor importância a regras e leis. Se fosse assim não teria chegado onde chegou. Do lado de dentro daquela conveniência, no conforto daquele ambiente teve uma visão perturbadora: um homem, dormindo em cima de algumas espumas e coberto por uma manta rota. Ao seu lado, duas garrafas da cachaça mais ordinária.


    Aquele homem sempre este ali. Segundo comentários mais maldosos, ele já fazia parte do cenário daquela rodovia mais que movimentada. Apenas Thiago nunca tinha dado muita importância a ele. Aliás, havia muita coisa que ele não fazia questão de prestar atenção. Sua vivência política havia dado a ele esta condição: quanto mais frio você for diante das adversidades, menos se abaterá e muito mais fácil as superará. E se estas adversidades não lhe dissessem respeito, as desprezava o mais rápido possível.


    No entanto, naquele domingo aquele resto de homem chamou sua atenção. Pensou o que levava um ser humano descer tanto assim. Como que alguém podia deixar que a vida se transformasse num inferno?


    Dizia acreditar em Deus muito mais por convenção social do que por convicção pessoal. Sabia da hipocrisia reinante nas religiões mas não era capaz de enxergar a hipocrisia que estava vivendo. Adora toda aquela situação. Havia descoberto que todos os homens tem seu preço e ele tinha condições de pagar a maioria deles. Para alguns, era abominável. Para a maioria, um modelo a ser seguido.


   Perguntou ao frentista quem era e porque estava daquele jeito. O frentista respondeu que não o conhecia direito. Dizia que todos os chamavam de 51 – numa referência a uma marca de cachaça – e que até onde sabia ele havia chegado naquela situação por causa de uma frustração amorosa.


    - Como é que é, me conte isto? Perguntou com um interesse não muito comum para uma pessoa que passou a madrugada em festas.


    Pacientemente o frentista contou o que sabia. Que ele era um mecânico de mão cheia e que ao saber que a mulher o havia traído começou a beber e a prevaricar no seu serviço. Acabou sendo despedido. Continuou a beber e deixou toda e qualquer possibilidade de emprego de lado. O que era para ser de lado, acabou completamente descartado. E para manter seu vício – única razão da sua vida naquele momento – começou a mendigar. E desde então aquela era sua vida.


    Achou ridícula a história. Como alguém poderia acabar naquele estado por causa de uma frustração amorosa? Só podia ser mais um mito que havia se criado em torno de uma figura popular naquela região da cidade. O que Thiago não pensou era no fato de ele sempre abastecer naquele posto – julgava o combustível mais puro da cidade – e nunca ter percebido que aquele homem existia.


    Antes de retomar o  caminho de sua casa, arrumou uma justificativa mais que perfeita para não ter percebido aquele homem:


    - Se não tivesse com a camisa do Flamengo com certeza eu não teria notado aquela figura. Disse para seus botões, como se quisesse dar satisfação a si mesmo da invisibilidade que aquele verdadeiro pária social provocava na maioria das pessoas como ele.


    E como tivesse perdoado a si mesmo pelo fato de ignorar um ser humano de maneira que não se ignora sequer um cachorro sarnento, deu uma nota de dois reais ao frentista, sorriu – como se tivesse dado uma nota de cem – e seguiu para sua casa. Afinal o descanso era mais que merecido depois de tudo o que ele tinha passado naquela noite.

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