Entrou no prédio onde morava com a arrogância que lhe era peculiar. Raras vezes cumprimentava, e mais raras ainda falava com porteiros e serviçais do condomínio onde morava. Além do mais estava relativamente “etilizado” para falar com alguém. E sem o mínimo de paciência também.
Ao chegar ao apartamento, olhou ao seu redor. Ali de certa forma era o mundo onde ele não usava as máscaras. Principalmente as sociais, da qual se tornara um mestre em usá-las e manuseá-las ao seu bel prazer. Morava num apartamento de 180 metros quadrados, com a mãe, dois irmãos adotivos e um irmão consangüíneo. O pai ele pusera pra fora da antiga casa quando começou a ter “status”.
Thiago era incrivelmente surpreendente. Da mesma forma que agia com o coração com algumas pessoas, era frio, mesquinho, egoísta em relação á maioria delas. Sua história era uma prova cabal disto. Estava com 26 para 27 anos e havia saído de um relacionamento onde tinha dado o melhor de si, mas sofrera a ingratidão da amada.
Ele não perdoava Talita por nada. Sua história tinha sido um misto de amor e ódio que duraram cinco anos. No fundo, ainda sofria com sua ausência, mas tinha optado em esquecê-la se afundado no trabalho. Até aí isto não seria inconveniente algum se não passasse a sentir desprezo pelo ser humano – a começar dele mesmo, sem se dar conta disto – como um todo. Era a soberba encarnada, por assim dizer.
Ao entrar na sua casa, sentiu um doce aroma de café quente vindo da cozinha. Sua mãe estava acordada, fazendo o ritual que ela seguia durante anos. Preparar tudo para os filhos e agregados. A relação de Thiago com sua mãe era outra prova inconteste do seu temperamento estranho. Ora, era o filho atencioso, dedicado. Ora, fazia dela uma verdadeira doméstica. Ou uma sub-escrava, mesmo.
Naquele dia, estava estranho. A visão do mendigo tinha sido perturbadora. Entrou na cozinha, deu um frio “bom dia” para a mãe, bebeu o café quente, e deixou um recado taxativo:
- Vou dormir agora e não quero ser incomodado por ninguém. Nem se acontecer um terremoto ou este prédio ameaçar cair, me acordem.
Nem sequer um mísero beijo deu em sua mãe. Foi para o quarto. Tirou sua roupa, ligou o computador e entrou no chuveiro. Enquanto se banhava ficou pensando mesmo se a história que o frentista tinha lhe contado poderia ser verdade. Alguém pode chegar á mendicância material por uma desilusão amorosa? Queria realmente esquecer aquilo, mas parecia que uma nova obsessão tomava conta da sua mente, da sua alma.
Mal se enxugou e nu mesmo foi para a cama. Num último relance, percebeu que Talita estava “on line”. Queria muito falar com ela, mas tinha a plena convicção que ela não merecia mais sua atenção. Por mais que se sentisse, ainda, atraído por Talita não seria justamente ele que daria mão á palmatória e cederia. Ela que remoesse por toda sua vida o dissabor que havia passado.
Ao perceber que ele estava “on” também, Talita tentou chamá-lo para conversar. Ele mudou o status para ausente e deixou um recado claro: “Fui dormir, não me encham o saco. Quando acordar falo com todos”. Era a maneira gentil que ele sabia de demonstrar afeto para com as pessoas. E se elas não gostassem dele assim que fossem procurar o “caminhão de onde haviam caído”. Sabia que estavam ao seu lado por causa da posição social e econômica que alcançara.
Deitou e olhou para a tela do computador. Por mais que detestasse a idéia, Talita ainda mexia com seus sentimentos. Isto era o que mais doía nele. Ter que admitir o quanto aquela mulher tinha sido especial em sua vida e quanto ele tinha dado de melhor para ela. E ela simplesmente havia feito com ele o que fez. Não, decididamente o melhor era deixar ela esperando até que ele descansasse. Se, ao acordar ela ainda estivesse “on line”, ele conversaria com ela. Afinal, ele era um homem civilizado – pelo menos ele se julgava assim.
Virou para o outro lado, tentando desviar a atenção da tela do computador e uma pergunta torturava sua cabeça:
- Por que, afinal de contas, tive que ligar isto?
Era extremamente difícil para Tiago admitir a idéia de que ele era uma pessoa absolutamente normal. Por mais que seu ego não permitisse, a essência de homem bom ainda tinha lampejos. Apesar de insistentemente admitir que abstraísse facilmente as coisas, aquela mulher que o esperava no MSN havia mexido profundamente com as razões mais simples que movem um ser humano: as emoções. Sim, são as emoções nossas maiores razões.
Enquanto lutava contra a vontade de levantar e teclar com Talita, a figura do mendigo voltou á sua mente. Definitivamente, 51 havia mexido com ele. Não que ele fosse fazer qualquer coisa para mudar o destino daquele pobre homem. Ele não era dado a esse tipo de atitudes e não seria agora que começaria a fazer este tipo de coisa. Mas a possibilidade daquele homem se contentar com duas ou três garrafas de cachaça, pão, um colchão de espuma e um “corta-febre” por causa de uma desilusão amorosa tinha feito com que ele repensasse – ou pelo menos começasse a repensar – algumas coisas em sua vida. E, ao começar a refletir sobre algumas coisas altamente relevantes que haviam acontecido, foi vencido pelo sono e adormeceu profundamente.
Não dormiu nada bem naquela manhã. Primeiro porque não conseguia tirar a imagem do mendigo da sua cabeça. Segundo que o barulho do domingo na sua casa estava mais infernal do que os dias anteriores. Acordou possesso consigo mesmo. Por que não tinha dado dinheiro para que todos naquela casa fossem comer fora e ele pudesse descansar como merecia?
Mal levantou e percebeu que Talita permanecia “on line”. Ela parecia desesperada para falar com ele. Percebeu que ela mexia, e muito, com ele ainda. Por mais que tentasse evitar o óbvio, ainda a amava. Jamais admitiria isso a ninguém. Até admitir para si mesmo era dolorido, imagine assumir isto aos outros.
Com cara de menos amigos do que o normal foi até a cozinha – apenas de cueca – tomou mais um café, um suco, comeu algo e foi encarar sua realidade. Saber, de uma vez por todas, o que afinal de contas aquela mulher poderia querer tanto com ele. Sentou na frente do computador, respirou fundo e disse para si mesmo:
- Seja o que Deus quiser...
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