Saindo daquele monitor estava voltando para o mundo real. Costumava dizer que aquela era a única ficção que ele apreciava. E isto com uma dose elevada de sarcasmo. Pois tratava como ficção pessoas reais. Virtuais, é verdade. Mas que do outro lado do monitor tinham sentimento, coração. Por isto achava tão imbecis as pessoas que caíam em golpes amorosos via internet. Tão imbecis quanto quem caía no golpe do bilhete em plena era da tecnologia de informações.
O que Thiago demorava a crer – mesmo sendo um fato recorrente em sua vida – era de que sua realidade era muito pior que qualquer depoimento que tivesse lido em qualquer site de relacionamento por onde circulava nos seus domingos. A vida era recheada de boas novidades. Mas sua vida era atribulada demais. E ele conseguia fazê-la ainda mais atribulada do já era normalmente.
Ao sair do seu mundo particular – seu quarto era literalmente isto e só ele habitava aquele mundo – deu de cara com uma das piores realidades com quem “era obrigado” a conviver: Mônica, sua irmã adotiva. Aquela jovem conseguia irritá-lo com o simples olhar. Naquela manhã, já irritado com o flash-back que tinha tido ao lembrar do início de seu relacionamento com Talita, ela conseguiu ir ao máximo do sarcasmo com ele, ao cinicamente dizer:
- Bom dia maninho...
- Antes que eu me esqueça, Mônica, vá tomar no cu com força...
Os dois se odiavam e – á medida do possível – se suportavam. Ela não queria mais saber de Talita na vida dele. Ele queria que ela desaparecesse como num passe de mágica. Se não fosse a presença da mãe, muito provavelmente os dois já tinham ido ás vias de fato ou pior talvez já tivessem se matado. O que a irmã adotiva não percebia era que – especialmente naquele dia – Thiago estava muito mais alterado que nos dias anteriores.
A imagem do bêbado e a história que o frentista havia contado a respeito de 51 tinha mexido com ele muito mais do que ele imaginava. Tentando esquecer daquilo foi até a cozinha ver se tinha algo para comer. Eram duas da tarde. Sua mãe, caprichosamente, deixava a comida pronta em um prato. Era apenas esquentar no micro-ondas. E assim mais uma vez almoçou sozinho.
Neste meio tempo, Mônica sorrateiramente entrou no quarto dele. Viu que o computador estava ligado e que Talita, desesperadamente, tentava falar com ela. Sem pensar muito e com uma agilidade poucas vezes vista ela sentou, abriu a janela e digitou:
- Faz um favor pra mim. Me erra, me esquece e nunca mais me procure.
Sem fazer a menor cerimônia saiu do quarto. Ele ainda almoçava. Ela riu baixinho e mais uma vez provocou:
- To saindo alguém quer que eu traga alguma coisa na hora que eu voltar?
Thiago retrucou:
- E desde quando bebum é capaz de lembrar de alguma coisa com a cara totalmente chapada?
E sem dar muita atenção ao irmão, Mônica saiu. Na realidade ela queria estar bem longe da casa quando ele visse o “serviço” que tinha feito no computador dele. Sabia que ele ficaria possesso. Sabia que até risco de ser agredida fisicamente ela estava correndo. Mas ela não resistia á tentação de provocá-lo. E além de tudo ela cada vez gostava menos dele e a cada dia crescia dentro dela uma vontade enorme de prejudicá-lo. Assim como ele fazia com as outras pessoas.
Thiago voltou calmamente para o quarto. Na realidade queria ver a reação de Talita. Ela, assim como ele, detestava a idéia de ser deixada de lado. Mas ainda assim ela tentava fazer isto com ele. Dessa forma a possibilidade de os dois reatarem ficava cada vez mais remota.
Ao entrar no quarto, percebeu que alguma coisa estranha tinha ocorrido. Ele era detalhista e conhecia cada pequeno detalhe daquele verdadeiro “reino” que tinha criado para ele. Notou que a cadeira em frente ao computador não estava na posição que ele deixara. A primeira coisa que pensou foi na irmã. Logo, descartou a idéia. Ela não seria tão insana a este ponto. Ela sabia – como todos naquela casa – que a entrada naquele quarto era restrita a sua mãe. Nem Geralda, a doméstica, podia entrar lá sozinha.
Achando que estava delirando já com o episódio do mendigo, sentou na frente da tela e começou a teclar com alguns amigos. Mas queria mesmo era falar com Talita. Ela permanecia calada. Não dava sinais que queria falar com ele. Sem se dar conta do que Mônica havia feito, pois a pensar na história que ele tinha construído com a agora quase ex-amante.
Lembrou que fazia meses que não ia ver Leonardo, filho de Talita e que ele havia assumido a paternidade. O menino era muito apegado a ele e o chamava de pai com freqüência. Uma ponta de remorso bateu no seu coração. Por mais que tivesse trabalhando poderia arrumar um tempo para ver o menino. E ele sabia que o sentimento daquela criança para com ele era verdadeiro. Esta era uma das poucas relações verdadeiras que Tiago ainda tinha. E num lampejo de “bom mocismo”, ele levantou-se daquela cadeira, trocou-se e foi em direção ao menino. Mal sabia o que estava para acontecer a ele ainda.
Ao chegar á casa dela viu a criança brincando. Ao vê-lo o menino veio ao seu encontro numa demonstração explícita de felicidade. O que ele não havia entendido era que podemos ser felizes quando amamos apenas trocando olhares. Nas situações menos triviais é que podemos sentir o amor. Para que nas situações corriqueiras nos alimentemos dele.
O calor do corpo infantil de Leonardo foi um bálsamo para ele. Precisava sentir que ainda era amado. A vida havia endurecido o coração de Tiago. Não que tivesse sido tão cruel assim. Mas ele havia feito a opção por ter e não por ser. E, efetivamente, havia conseguido. Tinha poder, tinha dinheiro, tinha status. Mas não era feliz.
E aquele abraço fez certa diferença para ele. Talvez até marcasse uma virada em sua vida se não fosse a atitude – mais que previsível – de Talita. Ao tentar falar com ela, simplesmente viu a porta do apartamento bater em sua cara. Ficou pasmo com a atitude. Sabia que ela era de tomar decisões precipitadas. Mais que isto, na hora da raiva fazia besteiras inomináveis. Ao lado dele, pegando em sua mão, estava a maior de todas as atitudes impensadas dela. Mas era aquela atitude que o fascinava nela.
Porém, percebeu que desta vez a coisa realmente era mais séria do que de costume. Ao entrar na casa, ela simplesmente deu as costas para ele e foi para o quarto. Se para as pessoas comuns ser ignorado é motivo de revanches cruéis, para alguém com o perfil dele era definitivamente o fim. Logo deixou o menino voltar para o parque onde brincava e, literalmente, avançou contra aquela porta.
Ameaçando derrubar a porta ele proferia juras de amor. Leonardo havia balançado o coração dele. Tentava mostrar a ela que tinha feito pouco caso dela porque tinha agido – mais uma vez – com frieza e estupidez. Para quem o conhecia ficaria a dúvida. Estava ele sendo sincera com ela ou era este mais um jogo para que ela voltasse para seus braços?
Antes que a dúvida pudesse ser dissipada, Talita abriu a porta e disparou:
- Por que você não pensa, ao menos uma vez, nos outros? De onde vem este mórbido prazer de pisar, de magoar as pessoas?
E trancou a porta novamente. A sentença contra Thiago estava lançada. Era tudo que ele não precisava naquela tarde de domingo. Depois da cena que tanto o perturbara, agora tinha uma pergunta que ele sequer tinha a menor pista para chegar á resposta. Mas tinha que ter uma explicação para tanta agressividade. Não que ele fosse um paradigma da bondade, do carinho, do afeto. Mas sempre tinha de ter um porquê para todas as perguntas. E as respostas deveriam ter a mesma velocidade das perguntas.
Não demorou muito e deixou Leonardo. O passeio tinha – mais uma vez – ficado para outro dia. Agora ele estava mais do que focado em tentar descobrir as respostas para as perguntas agressivas da mãe de seu filho. Chegou na sua casa e sem falar com ninguém deitou na sua cama.
Trancado no seu quarto procurava as respostas. O que ele havia feito á Talita para ela o tratar com tanta violência? Onde ele havia errado – desta vez – com ela? Aí é que tudo piorava em sua cabeça. Em busca das respostas, mais perguntas surgiam. E isto o irritava profundamente.
Subitamente, um último reflexo tomou conta de Thiago. Olhou para o computador e percebeu que ele ainda estava ligado. Percebeu que havia esquecido ele ligado e conectado no MSN. Pensou que ali poderia ter alguma explicação para aquela ira toda que Talita havia despejado contra ele horas antes. Mas descartou a possibilidade. Foi até a cozinha. Pegou uma lata de cerveja. Voltou para o quarto. O computador parecia desafiá-lo. Num último reflexo, sentou e foi buscar a resposta para o que mais o afligia. Ás vezes as respostas para nossas perguntas tornam-se nossas algozes.
Não demorou muito e viu o que Mônica tinha feito. Ela tinha sido tão sarcástica com ele que sequer fechara a janela do MSN. A cólera tomou conta de todo o seu ser. Imediatamente ligou para o celular da irmã. Obviamente, estava desligado. Transtornou-se. Saiu atrás dela, disposto a tudo. Até tirar a vida dela se fosse o caso. Passou em todos os lugares possíveis e imagináveis. Em nenhum lugar teve notícias.
A primeira coisa que Thiago pensou foi que estivessem escondendo alguma coisa dele. Depois, do fundo do coração, desejou que ela tivesse sido vítima de “seqüestro relâmpago” ou algo assim. Desde que ela desaparecesse da sua vida isto seria um alento para ele. Como não tinha notícias da irmã, passou em um bar, comprou uma garrafa de vodka e foi para casa.
Entrou no seu quarto e tentou inúmeras vezes ligar para Talita. A cada ligação, um gole. E a cada tentativa, uma frustração. Decididamente ela não queria falar e muito menos vê-lo. Por instantes pensou na semana que iniciaria na segunda feira, nas 72 aulas que tinha pela frente, nas reuniões e no seu futuro político. Mas o que ele queria era ser completamente bem sucedido em todas as áreas da vida. Como se isto fosse possível...
Lentamente foi perdendo as forças. Mônica não chegava. O álcool fazia efeito. As obrigações semanais cobravam o repouso. E antes que desse conta, adormeceu profundamente.
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