Seis da manhã. Acordou cinco minutos antes que o celular despertasse. Seu senso de responsabilidade era maior que seu caráter duvidoso ou que sua ira incontida. A verdade é que ele era um homem ainda novo, com seus 27 anos e uma vontade, uma obsessão pelo poder e pelo status inegável. Isto o fazia suportar a carga de trabalho que tinha.
Estava agora entrando para o mundo da política. Mas não de forma direta. Jamais teria paciência – e muito menos tempo – para os compromissos e as falácias que fazem o perfil do candidato e de boa parte dos políticos bem sucedidos. Tudo que dissesse respeito á eleição municipal o interessava. Via na política uma forma mais rápida de poder do que através do trabalho.
Depois de ter deixado o curso de Psicologia, entrou de cabeça no curso de Química e antes de ser contratado por uma multinacional – seu primeiro objetivo – começou a dar aulas. Como tinha mais carisma do que competência, logo começou a ser cortejado pelas escolas de sua cidade.
Como não se preocupava muito com a questão de companheirismo profissional foi abraçando todas as aulas que lhe foram ofertadas – evidentemente, pelo preço que ele exigia – e foi tirando muitos colegas do mercado. Isto, de certa forma, o excitava. Era a forma mais completa de exercer o seu poder. Não estava nenhum um pouco interessado se prejudicava outro profissional como ele. Usava os colegas para se inteirar de como era o novo ambiente de trabalho e quando todos menos esperavam, justamente os que ele menos gostava eram demitidos. Assim trabalhava – no seu modo de ver – apenas com quem ele queria. E foi desta forma que Thiago chegou a ter 72 aulas por semana.
Enquanto tomava o café de manhã e engolia as palavras do jornal o telefone tocou. Eram 6:40. Quem poderia ser naquela hora? Não era de chegar atrasados em seus compromissos. Aliás, não suportava atrasos de qualquer natureza. Era um político muito conhecido em sua cidade. Sua fama de corrupto era tão grande quanto sua popularidade. Disse que precisava falar com ele ainda naquele dia.
Seus olhos brilharam diante do convite do político. Sabia perfeitamente da fama que aquele homem gozava. Mas tinha plena noção que exatamente aquele homem poderia ser o canal para sua mais recente ambição: o poder. Não que tivesse poder bastante diante dos seus alunos, colegas, e até com alguns superiores. Mas como costumava dizer para si e para os poucos amigos chegados que tinha:
- Poder nunca é demais...
Até começou a degustar o café da manhã. As palavras daquele homem – uma verdadeira ave de rapina, segundo o senso comum – haviam mais que adoçado sua manhã. Subitamente o ódio com que despertara em relação á irmã havia desaparecido. Estranhamente ficara com dó de Mônica. E Thiago cansava de dizer que dó era o pior sentimento que se pode ter em relação a outra pessoa.
Levantou-se, beijou a mãe no rosto – como só fazia quando estava com extremo bom humor – e foi iniciar sua jornada semanal. Duas coisas passavam a tomar conta dos seus pensamentos desde então: a possibilidade de ascender ao poder político e a figura do mendigo. A esta altura a figura do mendigo não estava mais desassociada á história que o frentista lhe contara. Mais que isto. Passava,agora, a reparar que sua cidade estava cheia de mendigos que amanheciam na rua. Uma verdadeira calamidade social. O que ele não conseguia identificar era quais eram mendigos econômicos e quais eram mendigos sentimentais. Mendigos sentimentais? Só um louco para acreditar que alguém pudesse se tornar mendigo por causa de desilusão amorosa.
Seu dia passou rápido. Muito mais rápido do que de costume. Porém, as coisas não estavam tão boas para Thiago quanto ele imaginava. Talita permanecia irredutível na sua decisão de não falar mais com ele. Leonardo pedia a presença do pai, mas a mãe impusera que ele ficasse afastado dele. Para piorar ainda mais as coisas, Mônica agora se fazia de arrependida e procurava uma reaproximação com ele.
Ninguém entendia que ele precisava se concentrar no que poderia ser agora sua nova vida. E, pela primeira vez , pediu um favor a um colega de trabalho. Para ele isto era o máximo de humilhação a que um ser humano podia chegar. Pedir um favor a outro? Que cada um cuidasse do seu nariz. O mundo era pequeno para seu ego.
Enfim, poderia se atrasar na reunião com o tal político e pedira a um colega que desse duas aulas no seu lugar. Ele pagaria a ele. Em novas aulas, não em dinheiro, evidentemente. E no final da tarde foi ao encontro do político com quem conversara pela manhã. Chegou e pediram que esperasse. Ele sentiu um frio de raiva subir a sua espinha. Como esperar? Se tinham marcado com ele ás 17:30 deveria ser atendido no horário. E pela primeira vez começou a temer por não poder com seu sagrado compromisso com o magistério. Mas palavra dada é palavra empenhada. Quase sempre.
Depois de esperar uma hora e dez minutos – o que para ele era uma eternidade – e de ameaçar várias vezes ir embora e deixar tudo de lado, a porta da sala de Dr. Manoel da Luz abriu e seu secretário particular Marcos Flávio sorrindo veio até ele:
- Meu caro Thiago Porto! Que bom ter você aqui conosco. Entre que Dr. Manoel precisa falar com você e muito. Garanto que você vai gostar do que vai ouvir...
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