A vida de Thiago estava cada vez mais tumultuada e isto não o agradava em nada. Perder o controle das situações não era nada do que o agradasse. Aliás, ele era uma pessoa difícil de ser agradada e tinha até uma ponta de orgulho disto. Mas estava acontecendo uma coisa que o irritava profundamente: não poder prever o passo seguinte e, em conseqüência, não ter ninguém em suas mãos.
No entanto, sua angústia não ia demorar muito tempo. Não demorou muito para que o escritório de Dr. Manoel ligasse de volta a ele. O professor aprendia – ás duras penas, desde já – que na política e na religião o tempo não é cronológico; varia do humor e da vontade de quem está no controle.
Do outro lado da linha um entusiasta assessor – de quem ele nunca tinha ouvido falar – queria, de maneira assoberbada, agendar uma hora para que ele falasse com a verdadeira “ave de rapina” que era aquele político. Novamente riu de si mesmo. Já havia aprendido que neste meio marcar uma hora pode significar esperar duas.
Pensou no dia que estaria – de forma mais relativa – com o tempo mais disponível. Lembrou de todas as provas que teria que elaborar para aquele final de bimestre e disse uma data. Sem perder a alegria inicial do telefone, ouviu de forma entusiasta:
- Perfeito professor. Fico feliz que o senhor estará conosco. O senhor é um mito no seu meio. Então fica marcado. Dia 9, ás 18h00min horas.
Naquele momento era tudo que Thiago precisava: mudar um pouco o foco de sua vida. Tinha esquecido – ele era assim, tinha facilidade para deixar as coisas de lado quando melhor lhe convinha – com medo de que aquilo tudo pudesse se voltar contra ele. Não gostava de criar expectativas em torno do que ainda poderia ocorrer. Apesar de fazer com que os outros fizessem isto e depois os abandonasse.
No entanto aquele telefonema fez o antigo professor entrar em forma. De uma hora para outra suas aulas passaram ter a mesma qualidade de antes. Deixou o “back” de lado para recuperar sua concentração. Entregou as provas impecavelmente elaboradas. E seu contato com Andressa estava praticamente limitado a algumas ligações e a várias mensagens via SMS que trocavam. Ainda iria se dedicar mais a ela, mas naquele momento este era o seu melhor. E também não tinha desistido totalmente de Talita.
Como de costume, debruçou-se sobre o Plano que ele mesmo havia elaborado e foi buscar nas fontes de onde ele havia tirado boa parte das idéias mais subsídios para apresentar ao velho político. Sabia que esta conversa com aquela ave de rapina seria mais que decisiva para ele e exatamente por isto não ia deixar que seus planos vazassem pelos dedos. Pelo poder era capaz de qualquer coisa. Até de abrir mão de um novo ou antigo amor.
No dia e hora combinados, lá estava Thiago. Impecavelmente vestido num terno Armani, com uma pasta de couro onde o programa e suas variáveis ocupavam todo o espaço. Queria desde já começar a sentir a incrível sensação do poder. Conhecia bem aquela sala e a fama de Dr. Manoel era mais que conhecida. Ele tinha que ser, naquele momento, caçador e não caça.
Olhou para o relógio e viu que ainda eram 17h45min. Sabia que iria ter que esperar muito mais que quinze minutos. Buscou – não se sabe onde – paciência para a demora que viria. Abriu a pasta, tomou um café, e começou a ler o projeto. Percebeu que o ambiente não era mais o mesmo. Apesar dos móveis serem iguais e tudo estar exatamente na ordem que ele havia retido na memória, o nível das pessoas que estavam freqüentando aquele lugar não era mesmo. Muito “povão” demais. Tentou disfarçar, mas quando ia retomando a concentração ouviu o bip do celular. Era uma mensagem de Andressa que dizia: “Entra no MSN”.
O torpedo irritou profundamente o professor. Quem aquela menina achava que era para dar ordens a ele? Será que ela não sabia que ele era pessoa ocupada e não estava sempre á disposição dela? Havia chegado a hora de ele colocá-la no seu devido lugar. Mas naquele momento não poderia pensar em outra coisa que não fosse atender Dr. Manoel e mais que isto, firmar todos os acordos possíveis com aquele homem. Mal concluiu seu pensamento e a porta da sala do político abriu com Marcos Flávio, o assessor, sorrindo como sempre:
- Que prazer em revê-lo meu caríssimo professor.
- Obrigado, Marcos, obrigado.
- Vamos entrando que estão todos esperando por você.
A frase soou como uma bomba em seus ouvidos. Como assim todos? Não gostava de pactos que não se sustentavam. Tinha com ele que o acerto era somente entre ele e o político. Thiago chegou á conclusão que precisava aprender ainda mais de todos os meandros que envolvem a política. Mais exatamente a politicalha.
Se dependesse dele daria as costas para tudo e todos ali e iria embora. Sentiu-se ridículo por estar tão elegantemente vestido para falar com “todos”. Havia se preparado para um confronto entre ele, Dr. Manoel e, no máximo, seu assessor pessoal. Agora tinha esta novidade pela frente. Ainda assim não perdeu a postura. Recompôs-se rapidamente e entrou na sala. O deslumbramento anterior aconteceu de novo. Percebeu que “todos” nada mais era do que mais três assessores com fisionomia e roupas de quem tinha vindo do mais miserável sertão e agora se considerava gente importante. Riu de si mesmo ao pensar que encontraria pessoas que pudessem representar algum perigo para ele.
Mal foi entrando e político o recebeu de braços abertos novamente:
- Meu caro, professor Thiago. O mais novo reforço da nossa campanha e do nosso time.
- Como assim, doutor?
- Preciso de um homem como o senhor na minha campanha e na minha equipe daqui pra frente. Estes são algumas pessoas da minha extrema confiança e gostaria que o senhor se entrosasse com eles porque o senhor vai estar logo trabalhando com eles.
Thiago sentiu-se, erroneamente, poderoso e julgou que seria mais fácil do que imaginara manipular aqueles políticos. Decididamente, estava seduzido pelo jogo do poder.
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