Sua história com Talita, por si só, daria um romance. Conheceu Talita na Universidade. Eles faziam Psicologia. Coincidência maior. Ambos tinham nascido no mesmo dia. Tinham exatamente um ano de diferença. E no auge das suas vidas – fim da adolescência, início de juventude – acreditando que o mundo universitário fosse sinônimo de maturidade emocional, estabeleceram um romance entre eles.
E a expressão estabelecer romance é a mais adequada. Não era uma relação afetiva. Era uma relação de dependência, de chantagem emocional. Talita sempre tinha sido – e ainda era – uma menina linda, fruto da cobiça da maioria dos meninos da escola e da rua onde morava. Loira, olhos azuis, quase metro e oitenta, sorriso contagiante. Uma beleza “holywodiana”.
Thiago nunca tinha sido o que se pode chamar de padrão de beleza. Mas seu carisma e simpatia conquistava a todos. Podia parecer contraditório, mas ele já havia sido uma pessoa querida. Hoje, ao contrário, era muito mais temida – e principalmente odiada – pela maioria das pessoas com quem tinha algum tipo de contato.
Por conta dessa simpatia de outros tempos, ele acabou conquistando o coração de Talita. Mais que isto. Ela acabou conquistando o coração dele. No entanto, depois de algum tempo a relação começou a ficar desgastada. Discutiam com freqüência e os motivos eram os mais banais possíveis. Extremamente possessivo, Thiago queria que Talita o acompanhasse nos lugares onde ele queria estar. Ou então que ficasse em casa. Isto fazia com que ela agisse com rebeldia. Fingia concordar, mas ao virar a esquina ela ligava para suas melhores amigas e ia para onde queria. Principalmente se ela tivesse sido magoada pela grosseria dele. Aí que ela fazia isto com maior prazer ainda. E não fazia questão de esconder dele absoltamente nada disto.
Cada vez que Thiago descobria que Talita havia “descumprido” suas ordens ele ficava possesso. Mas como ele a amava incondicionalmente acabava tolerando isto. Afinal os dois estavam desabrochando para a vida. Nada mais natural que ambos quisessem descobrir o mundo. Só cometeram o pecado – e o amor não perdoa este tipo de pecado – de cada um querer descobrir o mundo sozinho e não juntos. Isto – na maioria das vezes – é um passo para o fracasso amoroso.
Para completar a desarmonia que o casal estava vivendo, Thiago desiludiu-se com o curso de Psicologia. Na realidade ele não tinha a menor vocação para ser psicólogo. Era colérico e intempestivo na maioria das vezes. E quando parecia ser racional, no fundo, estava arquitetando algo maquiavélico – no sentido mais pejorativo que esta palavra traz em seu bojo -. O problema seria falar para Talita o que sentia e qual era esta decisão. Nesta ocasião, ele havia feito uma descoberta relevante. Alguns sentimentos adolescentes – como o medo incontido de perder quem amamos – nos persegue durante toda a vida, por mais bem sucedidos que possamos ser ou estar.
Ainda assim, disse a ela que no final do ano faria um novo vestibular. Talvez até integral como psicologia, para que eles continuassem unidos. Mas que ele não tinha nascido para aquela profissão. E num dos poucos momentos em que a ética se fez presente em sua vida argumentou de modo incisivo:
- Não acho justo ocupar o lugar de alguém que tenha talento e vocação para a psicologia.
Este argumento convenceu plenamente Talita. Ele sabia ser persuasivo e para conseguir determinados objetivos até era – ou parecia ser ético – e desta forma a carreira de psicólogo de Thiago tinha chegado ao fim. O que não deu conta é que esta tomada de decisão também iria refletir – e muito – na sua relação pessoal e afetiva. Mas a sua realização sempre esteve e estava acima de tudo e de todos.
Neste dia, a vida dele deu a guinada para pior que todos achavam impossível que acontecesse. No final daquele ano foi aprovado no vestibular de licenciatura em Química. Nunca tinha pensado em ser professor. Mas tinha a impressão que o magistério tinha um certo poder e isto o interessava muito. Mais a mais, caso também não fosse isto que ele quisesse faria outro curso ou faria bacharelado. Uma coisa estava decidida: nunca mais iria lidar com psicologia na vida.
O fato de o curso de Talita ser integral e o de Thiago ser noturno provocou um distanciamento entre os dois. Só se falavam por telefones, SMS, MSN e outras formas de tecnologia. Porém o contato corpo a corpo, olho a olho, contato físico, o contato que realmente aquece a relação amorosa e a torna mais intensa e mais plena estava comprometida. E isto a incomodava. Nesta época, a ambição dele – que nunca tinha sido pouca, muito menos comedida – passou a aflorar na sua mente com mais intensidade.
Começou a trabalhar. Não se fazia de rogado. Podia ter todos os defeitos do mundo, mas era um obstinado pelo trabalho. Além disto, via no trabalho uma forma de ascender na vida. E para quem pretende uma ascensão rápida, a ética não pode ser uma companheira inseparável. Esta foi a equação que ele passou a incorporar na sua vida a partir dali.
Evidentemente que sua relação pessoal com Talita também entrou em linha de colisão. Se quando os dois estavam unidos ele fazia de tudo para impor sua vontade a ela, não seria agora que ganhava seu próprio dinheiro que as coisas seriam diferentes. Com uma diferença. Agora ela “dependeria” dele. O poder do dinheiro começa a falar mais alto na sua mente. Era o início de uma metamorfose que seria irreversível. Ou será que um mendigo em estado pra lá de terminal poderia provocar esta mudança nele? A vida sempre nos oferece perguntas e quase nunca, respostas.
Com esta mentalidade, a relação entre os dois ficou ainda mais instável. Ele ganhava pouco, é verdade, mas o pouco que ganhava fazia com que se sentisse poderoso, a ponto de controlar ainda mais Talita. Se no começo ela achava um certo charme esta possessão que ele tinha, agora estava mais que inconveniente, estava insuportável manter a relação.
E como era de se esperar logo houve um grande atrito entre eles. Ela queria ir num grande evento que teria em sua cidade. Além do mais haveria um show da banda Capital Inicial, de quem ela era fã incondicional. Ele simplesmente os achava insuportáveis. A briga foi imensa. Houve a primeira ruptura entre os dois.
Durante o evento ela conheceu um rapaz. Achou o bonito. Conversaram, beijaram, fizeram amor. E nunca mais um viu o outro. Semanas depois o quase esperado. Talita estava grávida. Do pai da criança ela mal sabia o nome. Pensou em abortar. Desistiu. Sempre foi meio fatalista. Sabia que podia ter evitado aquele filho naquela noite. Por que excluí-lo agora? E munida de uma coragem espantosa teve o filho.
Mais espantosa ainda foi a reação de Thiago ao nascer a criança. Procurou por ela e a perdoou. Fez mais. Registrou o menino como seu filho. Uma nova lua de mel iniciou na vida daquele casal...
Ao lembrar do fato mais importante que havia acontecido entre ele e Talita, lágrimas escorreram pelo seu rosto. Fazia tempo que não chorava e – principalmente naquele dia – ele precisava disto. Aos poucos, porém, voltou a ser o homem em que havia se transformado e como Talita demorava para responder a ele no MSN, levantou-se dando um burro na mesa e desabafou:
- Agora é você quem vai esperar o tempo que eu quiser, sua filha da puta...
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