Ao entrar no escritório político do Dr. Manoel, sentiu um certo clima de hostilidade no ar. Thiago estava acostumado a este tipo de situação. Mas como havia depositado todas as fichas naquele projeto, não teve como conter sua decepção. Depois riu da sua inocência. Como esperava ser bem recebido ali? Ele havia descartado várias pessoas para fazer aquele trabalho sozinho. Logo, deveria esperar por aquele clima.
A secretária do velho político, ao contrário dos demais, era a única pessoa simpática com ele. Logo ele começou a olhar com outros olhos para ela. Desejo lascivo mesmo. Ele era assim, uma verdadeira criança para certas coisas. Quando queria determinada pessoa fazia de tudo para ter. Depois, num ato tipicamente pueril, descartava como se fosse um brinquedo velho. E aquela mulher havia se tornado para ele um sonho de consumo naquela hora.
Enquanto aguardava ser atendido, percebeu que seu celular vibrava sem parar. Foi ver quem podia ser a pessoa mal educada que ligava sem parar para ele. Quem o conhecia, sabia que ele só atendia as ligações que queria. Evidentemente ficava possesso se as pessoas não fizessem o atendessem quando ele ligava. Era capaz de fazer verdadeira tortura psicológica com quem não atendesse sua ligações.
Para sua surpresa era Talita. Fazia um bom tempo já que ela não dava notícias e aquilo causou grande espanto nele. A primeira reação de Thiago foi de não retornar a ligação. Depois lhe ocorreu que pudesse ser alguma coisa ligada a Leonardo. E imediatamente ligou para ela. Para sua surpresa não era nada com o menino, era ela mesmo que precisava falar com ele. E com uma certa urgência.
Estranhou. Ela não era dada a este tipo de coisas. Gostava de falar tudo na cara, não por telefone. Afinal o que poderia ser tão urgente assim? Quando ele queria falar com ela, isto não era prioridade. De repente, do nada, passava a ser. Seria uma trégua e uma nova chance para a felicidade? Era melhor não pensar nisto e concentrar-se somente naquela reunião que poderia mudar sua vida.
E foi exatamente isto que Thiago fez. Leu e releu várias vezes o projeto que havia feito e se empenhado para fazer. Era muito crítico com suas coisas, mas daquele trabalho em particular havia gostado – e muito – e não via onde aquele político não pudesse gostar. Até porque até onde ele tinha conhecimento. Dr. Manoel não era dado a seguir planos de governo. Fazia por mera convenção política. Para mostrar principalmente para mídia que não era o demagogo que pintavam.
Depois fez uma pequena reflexão. Nunca havia votado em plano de governo nenhum. Tinha votado no candidato por quem tinha mais simpatia. Este era seu critério e , evidentemente, media os outros por si mesmo. Desta forma, não tinha porque o “seu” plano de governo não ser acatado por aquele político.
Não demorou muito e o secretário particular de Dr. Manoel chamou-o na sua sala. Seria este um bom sinal? Não para ele. Gostava sempre de falar com o chefe. Subalterno ao chefe seria apenas ele. Demais subalternos estariam sempre – no máximo – no mesmo plano que ele. E por isto não deveriam ser portadores de nenhum tipo de notícia. Nem boa, nem ruim. Ainda assim, forçou um sorriso e foi até a sala onde estavam lhe esperando.
Mal entrou e já foi ouvindo:
- Meu caro professor Thiago Porto. É uma honra tê-lo aqui. Sente-se que Dr. Manoel vai falar com o senhor logo, logo.
E antes que tivesse tempo de responder, o secretário já emendou uma nova pergunta:
- E o plano ficou bom?
A pergunta irritou Thiago profundamente. Como, ficou bom? Quem era ele pra perguntar isto? Não passava de um reles assessor. Por que justamente um nada, um zero á esquerda queria saber daquele plano. Rapidamente se recompôs. Esta era outra habilidade que ele possuía. Como nunca se mostrava inteiro pra ninguém, rapidamente reassumia o controle de seu temperamento. Raríssimas pessoas de fato o conheciam e isto dava um certo orgulho para ele. Não querendo perder para o assessor, respondeu que o plano tinha ficado bom.
- Posso ler? Intercedeu o assessor
A cólera tomou conta dele. Ainda assim, foi polido:
- Melhor esperar Dr. Manoel ler primeiro. Vai que ele não gosta, assim não passo mais vergonha ainda.
- Tenho certeza que está perfeito. E mais a mais vou acabar lendo, mesmo...
A resposta foi com uma lâmina afiada contra ele. Ia responder á altura, perder a paciência quando surgiu o velho político. Abraçou-o com a mesma alegria do primeiro encontro e foi logo perguntando pelo programa de governo. Triunfante entregou para Dr. Manoel, e ainda olhou com ar desafiador para o assessor. O político leu com uma atenção poucas vezes vistas. Thiago sofreu naqueles poucos instantes que aquela verdadeira ave de rapina lia seus escritos mas logo aliviou-se ao ouvir:
- Perfeito, professor. Quando que o senhor pode entrar em nossa campanha?
Nenhum comentário:
Postar um comentário