quarta-feira, 7 de julho de 2010

MU

Triunfante, Thiago entrou no carro. Estava até mais aliviado. Em muito pouco tempo estaria no poder, o sonhado e acalentado poder pelo qual seria capaz de brigar até a morte. Isto sim valeria a pena lutar. Mal comemorou consigo mesmo o que teria sido sua primeira vitória na política e ouviu o sinal de mensagem no seu celular novamente. Respirou fundo, pegou o celular e leu de novo a mensagem de Andressa:


    - Entra no MSN.


    A cólera tomou conta do professor. Aquela adolescente precisava ser enquadrada. Será que não percebia que estava sendo totalmente inoportuna? Ele estava cada vez mais gostando dela, mas ela estava extrapolando qualquer coisa próxima do bom senso. Era mais que necessário ter uma conversa séria com ela.


    Chegou em casa num misto de alegria e irritação. Seu estado nervoso aumentou ao dar de cara com Mônica e aquele sorriso cínico que tanto o irritava. Mais que isto, ela estava com aquele ar de deboche que o tirava do sério. E exatamente assim ela o recebeu:


    - E aí maninho, deu tudo certo nos seus negócios?

  
    - E desde quando isto é da sua conta?


    E sem dar muita importância ás demais coisas, foi para o seu quarto, ligou o MSN e viu que Andressa estava “off line”, mas Talita estava “on”. Uma alegria súbita invadiu seu coração. Por mais que se aplicasse em se dedicar á adolescente, suas reações eram muito mais quentes quando o assunto era a mãe do seu filho. E foi desta forma que ele travou um papo amistoso e quase de reatamento com ela.


    - Isto, minha linda, volta prá mim. Deixa eu reassumir o controle do nosso amor.


    Os pensamentos de Thiago voltavam-se cada vez mais para a mãe do seu filho. Uma sensação de prazer reacendia no seu peito. Percebia que ela tinha algum tipo de sentimento por ele e isto o deixava cada vez mais realizado. Seria este o cumprimento dos bons presságios que o dia estava lhe oferecendo?


    Quase do lado do quarto onde reinava a felicidade plena, Mônica angustiava-se em ver o irmão feliz. Isto era irritação demais para ela. Além do que uma estranha atração pela nova namorada dele crescia a cada dia. Ela não tinha a menor idéia do que poderia estar acontecendo. Pensava consigo mesmo que tudo isto não passava de uma amizade profunda. Só não sabia por que tinha ciúmes da melhor amiga dela. Desesperada em ver seus planos todos irem para o ralo, pegou o telefone e ligou para a amiga.


    - To chegando em casa. O que foi? O que ta acontecendo que você ta afobada deste jeito, menina?


    - Melhor chegar e voar pro MSN, Andressa. Ele ta conversando com ela um papo pra lá de animado. Se continuar neste clima eles reatam e você vai levar um tremendo pé na bunda.


    A jovem desesperou-se. A notícia era um arraso. Justamente no dia em que ela ia dar uma enquadrada nele, ela tinha que receber logo uma notícia desta? Mas a adolescente também imaginava ter o controle do jogo e apostava que saberia – como poucos – manipular aquela relação para que tudo virasse a seu favor. E, entrando em casa afobadamente, jogou a bolsa na cama, ligou o computador. Os segundos que se passaram para que o MSN fosse conectado pareciam uma eternidade. Finalmente, ela estava on line e logo estaria na mesma sintonia que Thiago.


    Ele, por sua vez, estava remoído pela raiva. Ninguém nunca havia se metido ou atrapalhado suas coisas assim. Odiava que alguém invadisse seus espaços. Mais tarde a adolescente entenderia isto. Agora não seria o momento. A vida pode ser célere, mas não pródiga a este sentido.


    Impacientemente, a adolescente esperava uma resposta do outro lado. Percebeu que o “homem da sua vida”, que o seu “perfeitinho” que o seu “primeiro amor” estava vazando pelos dedos. Um pânico nunca antes visto tomou conta daquele ser. Muito mais medo do que os outros pensariam dela – não ser competente o suficiente para agarrar um “partido” deste – do que da delicadeza que sua relação estava. E, num gesto desesperado jogou seu “coringa”:


    - Por que você ta tão nervoso, paixão?


   - Por nada, Andressa. Desde quando eu disse que você podia invadir meu espaço?


    Decididamente ela estava com problemas. Sentia-se invadido por ela. Lembrou do pacto – que, diga-se de passagem, ele só lembrava quando lhe era conveniente – e achou que tudo podia ter termo. Sua mãe jamais a perdoaria se tivesse cometido um erro tão grosseiro assim. Perder um futuro destes por inabilidade seria o cúmulo. E com um jeito todo especial, ela marcou de encontrar-se com ele no domingo.


    A pobre iludiu-se que Thiago seria uma pessoa tão passível de ser enganado assim. Ele, tentando saber até que ponto poderia contar com ela, resolveu desafiá-la. Era tudo ou nada para ele. Mais do que nunca esta era a chance de provar que estava no controle da situação. De outro lado, a adolescente pensava a mesma a coisa. E, julgando estar namorando o professor, achou que ele realmente fosse “seu”; que as coisas andariam como ela havia previsto para si mesma.


    - Mas é que eu tinha uma coisa importante para te falar.


    - Então fala que eu to ouvindo.


    Andressa começara a perceber que seu perfeitinho era mais difícil que ela pensara. Começava a entender algumas coisas que tinham falado dele. Mas ela estava mais do que obcecada por aquele homem. Não estava lutando á toa por ele. Estava se empenhando cada vez mais em tê-lo e isto não podia escapar tão facilmente.


    Ele, por sua vez, não suportava meias palavras. Se com os políticos que poderiam dar poder e o futuro que ele havia programado para si mesmo ele apenas engolia o jogo de palavras e as falácias próprias desse ambiente. Não seria uma menininha que iria usá-lo deliberadamente assim. Para complicar mais ainda a situação da adolescente, esta estava tentando – inutilmente – acalmar Thiago e fazer com ele entrasse no seu jogo. A verdade é que ambos estavam atraídos um pelo outro. Não por qualquer sentimento verdadeiro. Mas pela possibilidade que um via no outro de ter um relacionamento onde se tinha o controle da pessoa envolvida.


    Quando ele ameaçou sair do MSN, desesperada ela fez algo que seria – a partir dali – uma marca constante não só com o professor, mas com qualquer um que atravessasse seu caminho e despertasse nela o mínimo interesse. Impediu que ele saísse dizendo que tinha algo importante para dizer a ele. Estranhamente, ele acabou cedendo ás doces palavras de Andressa e sentiu-se preso naquele monitor. Mas pediu para que ela dissesse de uma vez por todas o que tinha a dizer porque isto já o estava cansando. Foi aí, pela primeira vez que ela abriu o jogo. Pior que isso, entrou num jogo mais perigoso do que podia imaginar sua consciência pré-adolescente: pela primeira vez cogitou a possibilidade de dar a sua virgindade a ele.


    - Você ta falando sério?


    - Como nunca falei na vida.


    - Olha...


    A satisfação brilhava nos olhos de Thiago. Teria a primeira virgem de sua vida. E mais, com paixão. Adorou a idéia e o tom de voz dele mudou. Se antes era um tom agressivo, inquietante, arrogante até, agora passava ser suave. O professor tinha este ponto fraco. Apesar da arrogância que lhe era peculiar, facilmente era destruído por argumentos que o levassem a uma sensação maior de poder. E os desavisados comungavam com este modo de vida dele.


    Por outro lado um misto de pânico, ansiedade e alegria tomavam conta de Andressa. Parecia ter definitivamente colocado cabrestos no seu “novo amor” e agora, com certeza, tomaria as rédeas deste relacionamento. Afinal, apesar da pouca idade e da aparência frágil que demonstrava ter ela era muito mais que isto. Tinha ambição que muitas vezes acabava sendo confundida com sonhos. Num ponto era sincera: sempre sonhou ser de um homem só. Mas nem só de sonhos vive o ser humano...


    Ao ver o irmão sorrindo, Mônica pensou que tudo estivesse sendo definitivamente resolvido. E isto também a alegrava muito. O que mais a incomodava, de fato, era a estranha sensação que sentia em relação aos dois. Enquanto pelo professor cada vez tinha mais asco, nojo, repulsa pela amiga sentia-se cada vez mais atraída. Até sonhos eróticos lésbicos já tinha tido com ela. Seria este um sinal do que estava acontecendo com ela? O melhor nem era pensar nisto por enquanto. Seu ódio por Thiago era maior que tudo e vê-lo destruído era algo que lhe dava um prazer nunca antes vivido. Percebendo a reação dele, pegou o telefone, ligou para a amiga e disparou:


   - Agora sim você ta agindo com inteligência. Era isto que eu esperava. Logo, logo ele vai comer na sua mão.


  - Espero que ele tenha me perdoado. Nossa hoje foi horrível demais.


   Andressa havia multiplicado os planos na sua mente. E havia decidido que – no máximo – apenas sua mãe iria saber das reais intenções dela em relação a Thiago. E mais a mais, dona Regina era sua cúmplice. Ambas visavam apenas uma coisa no professor: o status e a acomodação financeira que ela poderia dar a ambas. E para conseguir esta posição valia absolutamente tudo.


    Alheio a toda esta sordidez e acreditando nas melhores intenções do seu novo amor, o professor desligou o PC, trocando juras de amor com a adolescente e dormiu feliz. Porém, os sonhos – ou melhor, pesadelos – começaram a se mostrar um terrível aliado dele. Depois de muito tempo, a figura daquele trapo humano que havia visto em frente ao posto voltou a dominar seus pensamentos. Isto o incomodou demais. Será que aquele mendigo tinha morrido?


    Acordou no dia seguinte com a fisionomia denotando o que realmente vivia. Por um lado a alegria extrema de ter reatado com Talita e de estar bem com a adolescente. De outro, as imagens do seu sonho – que pareciam reais demais para ele – povoavam sua mente. Decidiu que após as aulas ia dar um pulo naquele posto. Esqueceu completamente que havia marcado de se encontrar com a mãe de Leonardo.  Decididamente, aquele homem havia mexido com o professor. Tomou café rapidamente e foi para a escola. O dever o chamava.


    Do outro lado da cidade, Andressa ia para suas aulas com um sorriso de orelha a orelha. Tinha conseguido domar a fera que todos diziam ser indomável. Thiago estava mais que em suas mãos. E logo estaria aos seus pés. Ela não tinha muito mais o que fazer. Bastava seguir a vida da maneira que vivia e, passo a passo, ir se infiltrando na vida e nas coisas dele. Sem que ele percebesse, teria conquistado mais que ele. Teria conquistado a família toda. E agora tinha uma barganha maior para jogar com o professor: sua virgindade. Decididamente ia colocar todos em suas mãos e aos seus pés.


    - Ainda vou fazer você ficar de joelhos prá mim... Me aguarde...


    Na escola, ela como uma líder da sua turma que era, fez com que todos á sua volta quisessem saber das novidades. Até um professor completamente afeminado fazia parte da roda. Mais de longe, Alcides, seu melhor amigo, olhava e entendia o que poderia estar acontecendo. Não concordava mas evitava dar sua opinião a respeito do caso. Sabia que a amiga quando punha alguma coisa na cabeça era praticamente impossível de tirar.


    Thiago tinha esquecido por completo a adolescente e muito mais Talita. Estava de pensamento cada vez mais fixo no que iria fazer depois da aula. O sonho com 51 tinha trazido grande perturbação em sua mente. Tamanho era o desconforto que ele esqueceu que havia se comprometido a participar de uma reunião no final daquela tarde com o grupo que apoiava Dr. Manoel. Ele era assim. Se alguma coisa mexesse com ele a ponto dele não controlar a situação, ele ia a fundo remexer em tudo para encontrar uma resposta para suas perguntas. Afinal, era um homem das Ciências Exatas e tudo tinha que ter um porquê.


    Mônica estava cada vez mais angustiada com a sensação do que estava acontecendo. Como podia estar cada vez mais ligada em Andressa do que nos homens que a rodeavam? Que estranha atração era aquela? Ela estava enlouquecendo. Para completar o quadro ela procurou Nena, uma grande amiga sua, assumidamente bissexual. Contou seus conflitos e o que estava sentindo, principalmente em relação á namorada do irmão. Explicou que cada vez mais nutria um ódio profundo por ele e que talvez esta fosse a explicação. A amiga riu, acariciou os cabelos dela e deu-lhe um longo e lascivo beijo. Em poucos minutos as duas se amavam freneticamente. O mundo homossexual abria suas portas em definitivo para ela.


    O sinal mal tocou e Thiago saiu ás pressas da escola. Tinha que ir para aquele posto e saber notícias daquele mendigo. Ele não se dava conta de como tinha sido atingido por aquela cena. Chegou até a pensar que fosse algum tipo de sentimento de solidariedade, humanidade que estivesse brotando nele. Mas para quem conhecia o professor com mais intimidade sabia que estes sentimentos estavam longe de serem reais ou verdadeiros. Com seu jeito contagiante, sua voz firme, seduzia a todos. Mas era pura falsidade. Raramente ria com os amigos. Nem em fotos demonstrava ser feliz.


    Chegou no posto e o frentista já o conhecia. Sabia que viria – se viesse – uma mixaria de gorjeta. Ainda assim arriscou mais uma vez:


    - Tudo bem, Doutor?


    - Tudo sim. Agora me diz. Cadê o mendigo que ficava aqui morreu?


    - Vaso ruim não quebra doutor. Se ele morresse seria bom pra todos. Imagina que ele passou três meses internado mas saiu e voltou pra cá. Tem gente que quando se decepciona com um amor não muda mais, doutor. Ele já, já aparece. Teve ter ido pegar pão ou cachaça ali na padaria.


    Thiago percebeu que tinha feito a coisa errada. A frase ecoou na sua alma: “tem gente que quando se decepciona com um amor não muda mais”. Seria então verdade a história da desilusão amorosa? Pode alguém amar tanto a descer a este ponto? Ele percebera que de alguma forma estava ligado naquele homem e que sempre teria – inexplicavelmente – um elo com ele.

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