- Mãe queria falar uma coisa com você.
- Fala, filha. Respondeu Dona Regina com o mau humor que a caracterizava,
- To namorando.
- É? E quem é o moleque?
- Não é moleque. Ele já é homem. Tem 27 anos, é professor e já tem até carro e apartamento. E é solteiro.
Os olhos da mãe brilharam diante das últimas informações. Sempre acreditara que aquela filha ia dar gosto a ela. Era excelente aluna, ajuizada, trabalhadora. E cuidava de Magali, sua irmã que tinha uma vida toda errada. E agora estava começando namorar um homem feito na vida. Isto sim era pensar no futuro. Rapidamente, praticamente sem pestanejar quis saber os detalhes de como era o rapaz, de tudo o que ele fazia, enfim queria todos os detalhes do futuro genro.
Totalmente concentrado – novamente – no seu trabalho e agora pensando cada vez mais na sua namorada, Thiago seguia sua rotina sem esconder sua profunda irritação com o mundo da política. Só não tinha procurado o político veterano e dito umas verdades a ele porque estava totalmente focado em Andressa. Queria por que queria cada vez mais aquela menina. E depois estava na hora dele desfrutar de uma realidade inerente, segundo seguiu amigo Ruy. Todo homem tinha um cabaço para desvirginar no mundo. E aquela menina seria dele.
A adolescente estava cada vez mais incorporando a figura da menina apaixonada para o novo namorado. Cada vez mais o clima ia esquentando entre os dois. Fosse pessoalmente, fosse via MSN. A relação, aos poucos, estava se enquadrando ao que ele desejava. E fugindo das mãos dela cada vez mais.
Não demorou muito para que ocorresse o primeiro encontro entre ele e Regina, a futura sogra. A reação não podia ser das melhores. Em muito pouco tempo os dois conversavam animadamente como se fossem velhos conhecidos. A filha olhava tímida e receosa para aqueles dois. Mal ouviu-se os pneus do carro saindo de frente daquela casa e a mãe disparou:
- Se você perder um homem como este, nunca mais falo com você minha filha!
Andressa sentiu um frio percorrer sua espinha. Apesar da deliciosa sensação que tinha de ter um homem financeiramente resolvido em suas mãos era deliciosa. No entanto, estava entrando gente demais naquela relação e, pela primeira vez, temeu por seus planos não darem certos. E começou sentir na pele as contradições do ser humano ao descobrir-se feliz e temerosa ao mesmo tempo.
As coisas ficaram piores quando Thiago – tomando as rédeas da situação, como de costume – propôs um pacto para a jovem. Quando um tivesse empatando a vida do outro que sinalizasse para que pudessem sair reciprocamente daquela relação sem futuros traumas. Ela prontamente aceitou o pacto. Só as leituras do pacto foram diferentes. Para ela, era uma senha para retomar sua liberdade a qualquer momento. Para ele era uma promessa que ela seria exclusivamente submissa a ele pelo tempo que ele quisesse.
Alheia a tudo isto, Mônica vibrava com a nova situação do irmão. Havia conseguido o que queria. Tinha afastado definitivamente Talita da vida dele. No entanto, coisas estranhas estavam acontecendo com ela. Cada vez se sentia mais atraída pela amiga – agora quase cunhada – e nesta mesma condição cada vez mais nutria o ódio pelo irmão. Mais que isto. Cada vez mais estava repudiando qualquer pessoa do sexo masculino.
Ele, por sua vez, era cada vez mais simpático com Dona Regina. Esta cada vez mais se encantava com ele a ponto de defendê-lo de tudo e de todos. Não foram poucas as vezes que ela assumiu a defesa dele para condenar a filha. Via, efetivamente, uma possibilidade de dar um futuro real e concreto para Andressa. E nada nem ninguém a impediria disto.
Obcecada pela idéia da mãe, a adolescente lutava com unhas e dentes para que Thiago não vazasse pelo vão dos seus dedos. Sabia da fama que ele tinha de usar as pessoas e ela não se permitiria a isto. Seria muito mais fácil ela tê-lo aos seus pés do que ele fazer algo parecido com ela. Sem pestanejar muito, ligou para a amiga e irmã do agora recém namorado e marcou de ir na casa dele. Os objetivos eram duplos: fazer uma surpresa e começar a travar um grau de amizade com a sogra, Dona Marli.
Mônica desta vez caiu na conversa da amiga e a introduziu na casa. Se o ponto de discórdia entre os irmãos já era tênue, depois deste ato, tornou-se transparente:
- Que idéia imbecil foi esta de trazer a Andressa aqui pra casa?
- Eu pensei que você ia gostar, maninho?
- Das minhas coisas cuido eu. Principalmente as pessoas que trago aqui em casa.
- Ta amargo, hein?
- Me esquece, Mônica, me esquece...
Thiago era assim. Todas, sempre as suas coisas tinham que estar sob o seu controle. Qualquer coisa que ele não tivesse programado, sua irritação transbordava. E aí se tornava cada vez mais agressivo. E quando as coisas o surpreendiam ele era capaz de qualquer coisa para se fazer notado. O mundo tinha que girar ao seu redor, sempre.
Entrou no MSN á procura de Andressa. Ela não estava. Tinha percebido pela fisionomia dele que não havia gostado nada da surpresa que ela havia programado para ele. Estava preparando uma forma de reaproximar dele e de forma cada vez mais definitiva. Em compensação, Talita estava “on”. Estranhamente sentiu seu coração disparar. Pensou ter o controle de suas emoções, mas viu que as coisas não eram bem assim.
A conversa com a ex foi tensa. Percebeu que os sentimentos dela estavam cada vez mais frios em relação a ele. Que se não fosse por Leonardo certamente ela o teria abandonado. E pela primeira vez sentiu remorso de suas atitudes. Só não entendia por que aquela mulher ainda mexia tanto com ele assim. Que sentimentos, afinal doido poderia ser aquele?
Regina percebeu a filha angustiada. Notou que ela queria entrar no MSN mas não tinha coragem. Foi perguntar para a adolescente. E a filha abriu o jogo. A ira tomou conta da mãe. Como que sua filha preferida e mais inteligente podia ter sido tão inocente assim? E depois de uma discussão como nunca tinha tido antes com ela, vez com que Andressa enxergasse que para conquistar de vez Thiago tinha que ser ou pelo menos se fazer de difícil, dissimulada, até cínica se fosse o caso. Só não poderia perder um “partido” como aquele.
Mônica estava se remoendo na dúvida que estava encarcerando sua alma. Afinal de contas o que poderia estar acontecendo com ela? Não entendia nada do que estava acontecendo com ela. Desesperada abriu o MSN em busca de respostas. Não demorou muito para que Andressa a chamasse “of line”. Estranhou porque raramente a amiga conversava com ele neste status. No entanto, respondeu. E sem se dar conta estavam as duas conversando animadamente.
Thiago levantou e foi procurar alguma coisa na geladeira para comer. De repente ouviu sons vindo do quarto da irmã. O que poderia ser aquilo? Percebeu que ela teclava divertidamente do computador do quarto dela. Isto não o incomodaria em nada se não fosse a música que tocava. Era algo que ele já conhecia de algum lugar. No entanto não lembrava de onde. Isto sim o incomodou.
Não encontrou nada de interessante na geladeira. Estava entediado demais com tudo aquilo. O sentimento que nutria pela adolescente era algo que ele não estava gostando. Não que não fosse uma sensação boa. Ao contrário, era sim. Mas era algo que estava fugindo completamente ao seu controle e isto sim o irritava profundamente.
Pegou uma lata de cerveja e ficou tentando encontrar uma explicação para tudo aquilo. Tinha que montar oito provas para a semana seguinte mas não tinha a menor paciência para debruçar-se em cima de fórmulas e questões. Era exigente demais consigo mesmo. Nunca haviam questionado o conteúdo de suas provas. Sequer um mísero erro de digitação havia sido constatado em seus originais. Tinha noção de sua responsabilidade. Mas sua perfeição com as coisas e sua obsessão em cada vez mais ser notado por ser impecável em sua profissão era maior que tudo. E ele não ia deixar um pequeno deslize da sua parte – uma pequena paixão – atrapalhar o que ele havia levado anos para construir.
Seus pensamentos vagavam longe, em busca de algo que ele havia perdido há muito tempo: ele mesmo. Subitamente uma música toca no computador de Mônica. Esta ele conhecia e muito bem. Era uma música que tinha muito em comum com os dois novos namorados. Um misto de alegria e ira extrema tomaram conta de Thiago. Levantou-se rapidamente e foi até o seu computador. Para ele, Andressa continuava com status “off line” . O sangue ferveu-lhe:
- Detesto palhaçada mocinha. Se você quer brincar com minha cara é melhor me esquecer desde já. Pensar que você quase conseguiu me pagar de otário. Espero que esteja aqui amanhã com uma boa explicação para esta palhaçada. Se cuida. Até mais...
E, completamente possuído pela raiva desligou o computador e foi tentar dormir porque afinal o dia seguinte prometia ser dos mais intensos e dos mais cansativos que teria pela frente. A adolescente sequer podia imaginar, mas aquela atitude de defesa a transformara – a partir daquele dia – na mais nova vítima dos caprichos e das vontades do professor. Estava, com a atitude típica da sua idade, irremediavelmente presa aos caprichos dele.
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