Ainda com a figura do mendigo na cabeça, o professor tentou se concentrar na sua tarefa política. Quando soube por um amigo que esta missão poderia roubá-lo da vida familiar e afetiva certo alívio tomou conta dele. Afinal seria muito melhor se pudesse controlar a tudo e a todos á distância. E este álibi seria perfeito: longe se podem dissimular saudades de acordo com a conveniência que tudo mais será lucro.
Procurando alguma coisa que estabelecesse o mínimo de lógica em sua vida – como se esta o fosse – apresentou-se ao “Q.G.” de Dr. Manoel. Estava cheio de idéias. E quando Thiago tinha idéias a persuasão estava diretamente ligada a elas. Não se fazendo de rogado – como sempre tinha sido seu estilo – convidou a todos que compunham a súcia que ordenava o direcionamento da campanha e do governo daquela verdadeira ave de rapina.
Com a habilidade que lhe era peculiar encantou a todos e –falsamente modesto – pôs-se á disposição de qualquer um dos presentes para esclarecer qualquer dúvida que ainda pairasse entre os membros da cúpula daquela campanha política. Evidentemente ele havia se inteirado antes que nenhum deles teria a menor habilidade para travar um debate prolongado a respeito do assunto. Temia muito mais seus alunos do que aqueles a quem teria o desprazer de dividir a campanha e quiçá um cargo num futuro governo daquele homem.
Cinicamente – da forma que melhor sabia lidar com o ser humano – agradeceu a presença de todos e se dispôs a tirar qualquer dúvida que surgisse posteriormente entre eles. Nesta hora, Thiago foi aplaudido freneticamente. Este era o homem que eles precisavam – se julgava o máximo, mas era tolo. Este era o povo que ele esperava lidar – se julgavam malandros, mas não passavam de otários -. E neste clima de verdadeira confraternização, o assessor o abraçou e disparou:
- Sensacional, professor, sensacional. Realmente devíamos ter colocado o senhor antes na campanha.
Uma falsa sensação de modéstia invadiu aquele homem. Sabia que ninguém ali teria condições de desafiá-lo para um debate. Ele havia se preparado freneticamente para este dia. Havia planejado durante anos ascender ao poder político. E não era um bando de despreparados que fariam com que tudo que havia sonhado fosse por água abaixo. Diante de tanta obsessão, seu caminho estava realmente traçado, mesmo ele tendo a noção que estava no limite de idade para conseguir um objetivo. Olhou para Dr. Manoel e provocou:
- Será que tenho condições de integrar a equipe e fazer ao lado do senhor uma administração voltada para o bem estar da população?
Os olhos do velho político marejaram. As palavras de Thiago eram exatamente as que esperava ouvir. O discurso do professor estava mais do que afinado com o dele. Fato é que o jovem havia feito uma verdadeira pesquisa sobre aquela verdadeira ave de rapina e que até os termos que aquele político usava e adorava usar ele já tinha – falsamente – incorporado ao seu linguajar. Enfim, estava – ou julgava estar – mais que preparado para assumir o poder e fazer dele a realização de um sonho. Ainda com a fisionomia carregada de emoção, o político disparou:
- Como disse o Mário, o senhor, professor estava muito bem escondido. A minha sorte é que a minha equipe é tão eficiente que conseguiu encontrá-lo a tempo. Pode ter certeza que o senhor caminhará conosco e após a vitória o senhor continuará conosco, sem dúvidas...
Mais uma vez ele triunfara. Dera-se bem. Sabia manipular pessoas como ninguém e não seria um grupo de pessoas sem o menor nível escolar que seriam empecilho a ele. Despediu-se de todos cordialmente e saiu vitorioso e crendo absurdamente que sempre se sobrepujaria a tudo e a todos. Ao entrar no seu carro, percebeu que tinha recebido dez mensagens em seu celular enquanto participava daquela reunião. A maioria, evidentemente, de Andressa. Desprezou quase todas. Sua felicidade era muito maior naquele momento e não abriria mão dela. Na primeira esquina, a caminho de casa encontrou 51, completamente embriagado e com a camisa do Flamengo. Na sua arrogância e auto-suficiência, Thiago jamais poderia pensar que aquilo fosse um presságio. E antes que o sinal abrisse disse para si mesmo:
- Como este mundo é cheio de coincidências. Esta esquina seria a última que pensaria em encontrar essa figura.
E disparou, rumo ao aconchego de sua casa para curtir – como sempre – sozinho mais aquele instante de glória pessoal.
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